Performance Art – Parte II

A performance e a transgressão do espaço
Maria Vitória Siviero

 

Anteriormente tratamos das performances que se identificam com o espaço onde são apresentadas, como as performances de galeria. Em oposição a esta categoria, estão as performances que procuram se diferenciar do espaço, popularmente conhecidas como happening.

Como um bom exemplo, a performance Barbed Hula, realizada pela artista Singalit Landau em uma praia israelense, ao sul de Tel-Aviv, opera em total cisão com seu espaço.

Em meio aos conflitos do Oriente Médio, o local onde Landau executou sua ação é apreciado como um cenário pacífico e vendido como um dos destinos mais belos do mundo. Também é um local onde idosos se exercitam e pescadores trabalham. O espaço plácido faz parte da única fronteira natural e tranquila que Israel possui, uma vez que as demais estão sitiadas, tomadas por cercas, arames e muros.

Durante essa performance, Singalit Landau ficou nua, de costas para o mar e brincou com um bambolê de arame farpado que cortava sua pele.

A artista converte uma brincadeira e prática relacionada à saúde em uma ação de mortificação, trazendo ao espaço plácido da orla marítima figuras características da guerra, como o arame farpado, comumente associado à separação de fronteiras.

Se na performance Rhythm 0, Marina Abramovic se identifica com o espaço da galeria, em Barbed Hula, Landau opera pela diferenciação, ou seja, sua ação central almeja se distanciar do local onde é realizada. A performance rompe um espaço caracterizado pela placidez com figuras associadas à guerra.

O corpo entre o arame torna-se metáfora para o país sitiado. Ainda que a praia seja vendida como um espaço pacífico, a ação de Landau denuncia que ela é também parte da zona de conflito que assola o Oriente Médio.

O jogo do bambolê farpado, torna-se metáfora para a violência que as fronteiras impõem sobre o corpo humano. O sangue é, muitas vezes, o preço a ser pago pela demarcação circundante.

Os atos performáticos que operam pela diferenciação têm o choque e a surpresa como elementos-chave: o público é tomado de assalto por sua manifestação, uma vez que este tipo de ação performática vai radicalmente de encontro com as atividades  esperadas naquele espaço.

Neste grupo, estão as performances comumente chamadas de happening. Outro exemplo de performance que pertence a essa categoria é Kunst und Revolution, de Herman Nitsch, Otto Mühl, Rudolf Schwarzkogler e Günter Brus na Universidade de Viena.

O grupo foi convidado para realizar uma palestra, mas, em vez disso, Günter Brus subverte as expectativas do público ao se cobrir de excrementos e beber a própria urina em vez de palestrar de forma clássica sobre arte.

Além das ações performáticas nas quais o performer se identifica com o espaço onde realiza a ação, comumente compreendidas como body art e do chamado happening, que é caracterizado por uma ação que se diferencia de um espaço, é possível identificar outras duas categorias de performance, das quais trataremos nas próximas semanas.