O quadrinho brasileiro contemporâneo XXIV

Samuel de Gois – DR
por Antonio Vicente Seraphim Pietroforte

Outro dos cinco finalistas da feira de quadrinhos Des.gráfica 2017 é a HQ DR, do Samuel de Gois.

Em {DR}, sigla para “Discutindo o Relacionamento”, é, evidentemente, tematizado o diálogo. A HQ está baseada na repetição visual; em toda página par há o perfil direito da cabeça humana, que contrasta com o perfil esquerdo em todas as páginas ímpares. Uma vez aberta, as faces entram em constante diálogo; cada dupla de páginas par-ímpar é uma variação sobre a repetição das faces, em que o Eu, longe da subjetividade vulgar, constrói-se sempre através do Tu. Para ilustrar isso, escolhi quatro pares de páginas dessa face a face:

(1) este é o primeiro espelhamento: as palavras entram não apenas pelos ouvidos ou saem pelas bocas, as palavras caminham também pelos olhos e seguem por percursos internos; nesses descaminhos, não sabe bem qual a origem da comunicação, isto é, não se sabe bem quem disse o quê;

(2) no espelhamento seguinte, percebe-se que a dialética inaugurada no espelhamento anterior permanece, mas em termos de retórica visual: não se sabe se o navegante procura, com sua luneta, pela luz do farol ou pelas luzes das estrelas; se a segunda sugestão for levada adiante, a luz do farol, antes de ajudar, atrapalharia a visão do céu noturno;

(3) neste terceiro espelhamento, a complexificação dos contrários se dá em cada lado do rosto: do lado esquerdo, há o doce do mel, mas o ferrão das abelhas; do lado direito, há o perfume da rosa, mas em meio aos espinhos;

(4) neste último espelhamento, os conteúdos são mais trágicos; não há doces ou perfumes, mas há o galho e a forca, conectados pela mesma corda.

Confirma-se, portanto, que o texto da HQ, em sua totalidade, segue pela temática da construção dos sujeitos por meio do diálogo, em que “eu” só existe em relação ao “tu”. Para validar isso, Samuel de Gois não se limita a colocar suas personagens uma diante da outra, ele complexifica o sentido da comunicação fazendo com a significação sempre dependa das duas faces, com significados polissêmicos e até mesmo contrários. Em suma, o elo semiótico de sua HQ é a polifonia.