O quadrinho brasileiro contemporâneo XXIII

Guilherme Wanke – Sonho Médio
por Antonio Vicente Seraphim Pietroforte

Outro dos cinco finalistas da feira de quadrinhos Des.gráfica 2017 é a HQ Sonho Médio, do Guilherme Wanke. Sua HQ me fez lembrar meus tempos de infância, mas não porque a infância seja o tema da história, lembrei-me do discurso da segurança pública de São Paulo, nas décadas de 70 e 80, a respeito dos condomínios da classe média. Na época, era comum que policiais truculentos, geralmente ligados à tortura e à repressão das liberdades civis, ocupassem cargos de chefes de segurança pública; para justificar seus desmandos, muitos deles declaravam que cidadãos honestos ficavam trancafiados atrás das grades e muros de seus condomínios, enquanto delinquentes podiam roubar, soltos nas ruas. Do que pessoas equivocadas assim costumam se esquecer é que quem causa as injustiças sociais geradoras da criminalidade costumam se esconder em seus condomínios fechados; historicamente, quem se separa da população pobre são as classes dominantes, seja na casa grande e nos sobrados, nos tempos do Brasil colonial, seja, com seus sonhos medianos, nos condomínios fechados da atualidade. Em termos de exploração social, caberia indagar se os verdadeiros ladrões estariam dentro ou fora dos condomínios fechados.

A novela gráfica Sonho Médio aponta, justamente, para tais questões. Ela não é, de modo explícito, uma HQ engajada politicamente com injustiças sociais; em Sonho médio são tematizados o tédio e o marasmo da classe média inócua e sem imaginação, afundada no lodo de sua própria mediocridade.

Para ilustrar isso, vou comentar, brevemente, três passagens da HQ. A primeira delas está logo nas páginas iniciais, trata-se da garagem, apresentada em forma de labirinto mutante em função das presenças irregulares dos automóveis no tempo, cuja passagem é marcada pela alternância entre a luzes e as sombras, que não se sabe bem se são naturais ou artificiais.

O espaço da garagem é contraposto a outros espaços, entre eles, o espaço fora do condomínio, visto através das grades. Nesse espaço, do lado de fora, as mudanças fluem, isso se verifica nas pichações feitas nos muros e depois, apagadas deles, mas a observação é sempre a do sujeito aprisionado em sua situação de condômino, imerso no apartheid social semeado por ele mesmo, mesmo que alienadamente. Estes são alguns dos quadros das vistas do muro:

Ironicamente, o modo de vida rotineiro e mecânico faz com até mesmo o lazer seja mecanizado e repetitivo. Quando viaja, nosso sujeito vai sempre aos mesmos lugares – Portugal, França e Estados Unidos –, os souvenires são índices disso; lugares que ele não deixa de repetir, pois, entre tantas cidades do mundo, ele visita Nova Iorque duas vezes – a caneca e a estátua da liberdade –.

As cenas mudam constantemente, a novela gráfica é um delírio não da profusão de formas, mas da sutileza delas, em que pequenas mudanças indicam grandes constâncias. Na expressão dessa mecanização do cotidiano, reforçado pela fuga da civilização representada pelos grandes condomínios, há uma chave semiótica, também constante, que organiza a narrativa no tempo e lhe dá coerência plástica: a alternância entre claro e escuro em seus jogos de sombras. Essa repetição cromática, que poderia sugerir mudanças através do tempo, revela-se como a falsa alternância vivida pelo sujeito da trama, uma vez que ela se desdobra sempre em novas repetições.