O quadrinho brasileiro contemporâneo XXII

Kelly Alonso Braga – O Elvis que eu amo
por Antonio Vicente Seraphim Pietroforte

Outro dos cinco finalistas da feira de quadrinhos Des.gráfica 2017 é a HQ O Elvis que eu amo, da Kelly Alonso Braga.

“O Elvis que eu amo” é composto por colagens, nas quais Elvis Presley, em fotografias, atua com desenhos de uma moça, que fala, em tom confessional, de suas obsessões com o cantor. Entre fotos e desenhos – com traços irregulares, feitos para simular desenhos amadores –, a autora apresenta, na construção do álbum, uma obsessão. Desse ponto de vista, a HQ da Kelly, na primeira leitura, é uma excelente comédia de cenas constrangedoras e confusões; na segunda leitura, essa comédia ganha tonalidades trágicas; por fim, o riso pode se resolver em drama.

Por que comédia? Em princípio, uma moça apaixonada por Elvis Presley já teria graça; quando isso se torna possível, mediante delírios gráficos, o humor encontra muitas situações para se colocar. Exageros podem fazer rir; Élvina, cujo o próprio nome menciona sua fixação, tende a ser exagerada:

Por que tragédia? Porque a fixação de Élvia, ao longo da narrativa, revela-se doentia. Não se trata apenas de admirar o artista, mas de viver a ilusão de que ele vive com ela, é seu amante, está em todo lugar existindo por meio de outras pessoas.

Por que drama? Porque, em sua loucura, Élvina serve de mote para denunciar, entre outros temas, o tema da subordinação feminina. Drama, entre muitos significados, quer dizer “qualquer peça de caráter grave ou patético que representa ações da vida comum”. Pois bem, a definição de drama se adequa perfeitamente às desventuras de Élvina; entre elas, sua dependência do modelo masculino representado pelo cantor.

Elvis Presley não é, necessariamente, um modelo masculino revolucionário, pelo contrário, ele está mais para garoto propaganda do american way of live, modo de vida distante do cotidiano de Élvina. Além do mais, na paródia de homem que é o Elvis singularizado por ela em seus delírios, ele se torna metonímia de todo machista, uma vez que o Elvis de Élvina é assim: distante; egocêntrico; serve-se da mulher, quando muito, como acompanhante. Cabe indagar, portanto, porque esse homem imaginário não é idealizado leal, sincero, companheiro.

A seu modo, talvez Élvina encene uma neurose, que parece girar antes ao redor da dependência de modelos masculinos do que, necessariamente, de Elvis Presley. Nesse nível menos específico, a HQ de Kelly Alonso Braga revela-se bastante crítica; o humor torna-se meio para denúncias sérias, tematizando a alienação da mulher imersa nos valores do patriarcado. Nesse espelhamento, a HQ ganha toda sua força.