O quadrinho brasileiro contemporâneo XXI

Lovelove6 – Gastrite Nervosa
por Antonio Vicente Seraphim Pietroforte

Um dos cinco finalistas da feira de quadrinhos Des.gráfica 2018 é a HQ Gastrite nervosa, da Lovelove6, quem eu tive o imenso prazer de conhecer pessoalmente quando ela autografou meu exemplar. Já havia ouvido falar de seus trabalhos, reunidos n’A garota siririca; adquiri meu exemplar desse trabalho seu na mesma feira. Por isso mesmo, minhas leituras de Lovelove6 são recentes.

Lovelove6 é militante feminista? Gastrite nervosa é quadrinho engajado? Isso interfere na qualidade artística da HQ? Trata-se de estabelecer “cotas” para mulheres? … enfim, como todas essas questões se articulam na linguagem da história em quadrinhos? Antes de tudo, quero dizer que achei Gastrite nervosa um trabalho fantástico, tanto na arte, sua estética, quanto no engajamento político, sua ética.

Não vou me perder fazendo análises do feminismo, não sei o suficiente a respeito do tema, nem vou buscar enquadrar a autora em agendas ideológicas; vou escrever sobre o que eu li: um sufoco. Isso mesmo, Gastrite nervosa soa, paradoxalmente, como quando não se pode falar. Li, reli… é isso o que se faz com as mulheres no patriarcado? Não me refiro ao que se faz com a protagonista da HQ, uma trabalhadora que entrega seu corpo como mesa para sushi erótico; refiro-me ao que isso simboliza, seja como exposição da realidade, denunciando o machismo, seja como metáfora da condição feminina.

Mesmo com o pouco que estudei do assunto, sei que feminismo não é o contrário de machismo, a relação entre os dois conceitos é outra. O machismo é uma ideologia feita para justificar o patriarcado, seus valores, contudo, tendem mais para a falta de inteligência e exacerbação da brutalidade do que para as sutilezas argumentativas dos despotismos esclarecidos; em outras palavras, o machismo é a face mais espúria e opressiva desse tipo de sistema social. O feminismo, em meio a isso, é uma forma de lutar, antes de tudo, contra a morte simbólica da mulher, que passa, entre os machistas, a ser definida somente em relação a eles, perdendo, assim, sua identidade. No patriarcado, como se sabe, não há diversidade entre as mulheres, elas são esposas ou prostitutas. Isso se confirma em Gastrite nervosa: a protagonista vende seu corpo não especificamente para relações sexuais costumeiras, mas para um fetiche bastante específico, sendo, a seu modo, também prostituta; lá está ela na capa da HQ, completamente reificada, servindo de bandeja para sushi erótico.

Do texto de Gastrite nervosa, quero chamar atenção para duas passagens: (1) a cena do respingo de molho shoyu no rosto da protagonista, durante a refeição de um cliente; (2) a repetição da mesma posição, com algumas variações, em que se encontra nua e deitada de costas.

Na cena do respingo, por desatenção do cliente, algumas gotas de shoyu caem no rosto da moça transformada em prato; em seguida, surpreendentemente, ele se desculpa, levemente encabulado. O que isso significaria? Com certeza, não significa respeito por parte daquele homem; para mim, soa como outra atitude machista. Diante de tamanho desrespeito pelo corpo reificado da mulher, de que vale se desculpar por alguns respingos de molho? Metáfora de ejaculação precoce? Pode ser, isso procede; nessa metáfora, o desrespeito é ainda mais grave, tornando-se eufemismo para a cultura do estupro. Nessa expansão de sentido desencadeada por uma cena tão sutil, o talento da autora em sua composição é inegável.

Em literatura, repetir palavras com mesmo significado ao longo do texto é a ocorrência de uma figura de linguagem chamada anáfora. Quando em vez de palavras, repetem-se imagens, elas podem ser chamadas anáforas visuais; Lovelove6 se vale dessas anáforas constantemente.

Em literatura, as anáforas promovem a concentração do sentido por meio da insistência na repetição de palavras e, até mesmo, de frases inteiras; quando se trata de repetir imagens, o efeito de sentido é o mesmo. No caso de “Gastrite Nervosa”, parece que repetir a mesma cena intensifica a somatização do trauma, também repetido constantemente; mesmo nas variações da cena em que a protagonista se encontra deitada de costas, como quando está servindo de prato, variam os objetos, mas a agressão é a mesma.

Esta sequência é apenas um exemplo dessa retórica da imagem:

Por fim, gostaria de fazer um depoimento: ler “Gastrite Nervosa” da Lovelove6 me fez refletir muito sobre as condições da mulher no mundo opressivo do patriarcado; sua militância merece todo respeito, sua voz merece ser ouvida em nome da pluralidade entre homens e mulheres, dentro e fora do universo das histórias em quadrinhos.