O quadrinho brasileiro contemporâneo XX

Por fim, Mijo de Cristo Tem Poder para uma análise da conversação
por Lilli Ferreira

Chegamos ao último texto sobre uma tentativa de analisar Mijo de Cristo Tem Poder sob a perspectiva da análise da conversação, campo da Linguística. Com bases em textos do NURC/SP, projeto que foi responsável por avanços na pesquisa sobre língua falada a partir da coleta de gravações, transcrição e análise da variedade linguística na cidade de São Paulo.

Para o intento em localizar esta interface entre oralidade e escrita na obra de Bello, utilizamos, até aqui, outros campos como fonética, sociolinguística. Na próxima figura, quando Rodger encontra um Jesus menos amistoso, por conta de seu pecado em traficar o mijo santo, passaremos a analisar o contexto hostil e como isso afeta a interação.

Fonte: do autor

Na linguagem visual, as reticências têm diversas leituras: (1) pausa; (2) hesitação; (3) passagem de turno e (4) assalto ao turno, com o sem deixa. A interpretação do leitor irá depender tanto da grafia quanto da ilustração. Repare-se, mais atentamente, a algumas destas utilizações na figura 3 e organizadas a seguir em outra tentativa de esquematizar o diálogo para melhor visualização do processo conversacional entre os interactantes:

 

6     L6: Porra Rodger, essa sua pinga tá demais de muita coisa de boa. Eu.. Te amo!

7     L7: Obrigado Senhor finalmente serei famoso e amado pelos fiéis…

Jesus?!!Q-Que surpresa encontra-lo aqui…

9    L8: Surpresa me encontrar aqui… na Igreja! Essa é minha casa Mano, séloco! E o Assunto que eu vim tratar é sério…

É o seguinte: Eu sei o que cê fez seu pilantra! Cê acha certo ganhar dinheiro com o mijo dos outros hein? Picareta da porra.

13   L7: Mas… mas…

14   L8: Sem “mas”. Tem outra: Só eu posso lucrar com os fluídos do meu corpo. Tanto é que eu sou dono da marca licor “12 apóstolos” que é derivado do meu esperma!

16    L7: Me desculpe Jesus. Eu fiz tudo isso porquê estava cego pelo desejo de ser famoso, ser… alguém… tenha misericórdia…

18   L8: Haha! “Jesus has no mercy” mano! Cê tá fudido agora!

 

O segmento conversacional criado a partir da sequência dos quadrinhos da figura 3 apresenta características dialógicas mais extensas que as figuras dos textos anteriores.

No primeiro quadro, a ilustração mostra duas personagens do sexo masculino, em contexto de conversa de bar, ambiente descontraído geralmente. Em certa altura, L6 dirige um “eu te amo” a L7. A declaração de estima por L6 demonstra certa hesitação, pois é considerado, em certas sociedades machistas, que cenas de afeto entre homens são degradantes à imagem de masculinidade.

Tendo como base a ideia “o mas não é uma negação do dito e sim uma proposta de reordenação num outro ponto de vista” (Marcuschi, 1989, p. 299) o termo entre reticências mas, apresentado na fala de L7, marca a tentativa tanto de sustentação de fala quanto de organizar a interação interpessoal, exemplo do conceito sobre a prevalência da “função pragmática sobre a gramatical quando perde sua marca de mero papel adversativo para mecanismo de interação (Urbano, 1999, p.99). As reticências registram a hesitação do falante diante de seu interlocutor (linha 13).

Registra-se interrupção abrupta (chamado de assalto sem deixa em análise da conversação) por parte de Jesus (L8) durante a tentativa de Rodger (L7) em obter o turno (linhas 13-14), que se dá em durante a conversa mais acalorada. Diferentemente das figuras 2 e 3, a quarta apresenta diálogo menos equilibrado com relação à passagem de turnos, Jesus passa a ser figura desestabilizadora da interação, obtém dominância, demonstrando típico diálogo assimétrico. A fala de L8, na figura 3, apresenta construção sintática e gramatical dentro da norma padrão da língua, contudo, certa linguagem especial é vista como “séloco”, “mano” e os mesmos registros das personagens da figura 1, variedades dialetais relacionadas às regiões periféricas das grandes cidades e profundamente estigmatizadas na sociedade. Pode-se dizer que Bello sublima essa variedade linguística ao introduzi-la ao dialeto de Jesus.

Pela primeira vez, nesta breve análise, o marcador conversacional simples paraverbal “hein” é examinado no diálogo, conferindo uma indagação ao ouvinte L7. Além disso, ainda na análise da interação entre Rodger e Jesus e seu diálogo assimétrico, as recorrentes pontuações exclamatórias deste a partir do quinto quadro da figura 3 demonstra a diferença de entonação entre personagens e traz ao lume a razão da hesitação de L7 em seus turnos diante de contexto mais ameaçador, com presença das expressões faciais como marcadores não-verbais.

O que se verifica até aqui é a possibilidade de abrangência sobre a oralidade e como o autor pode se valer das diversas tonalidades que o gráfico e o visual podem transbordar durante a narrativa. Pode-se pensar em amálgama da ideia de Oesterreicher (1986, apud SILVA, 2015, p.136) em novo acordo onde ambos, fônico e gráfico,  não seriam distintos, mas unidos perante a elaboração de uma obra ficcional que procura registrar a interação mais próxima das realizações orais da sociedade. O mesmo se pode empreender segundo a análise de Marcuschi (2001, apud SILVA, 2015, p. 136), onde a distância comunicativa se faz presente na HQ por meio da introdução contextual pela voz narrativa, sempre em terceira pessoa, versus a imediatez comunitiva, face a face que se apresenta no ato conversacional entre personagens.

Para concluir, vemos, ao longo do quadrinho Mijo de Cristo tem Poder, aproximações entre escrituralidade e oralidade, com a presença de marcas coloquiais, troca e assalto a turnos, desenvolvimento de tópico, o texto erguido pelo autor para apreensão do processo comunicativo (imagens e texto descritivo que demonstram o contexto da interação), entre outras particularidades da interação interpessoal. O que perpassa pela análise é a conexão que se faz entre verbal e não-verbal, cujos tratamentos sobre conclusão de tópico devem discorrer de acordo com a linguagem textual e visual inscritos em quadros e subtendido entre quadros, por conta da necessidade particular que o quadrinho, de modo geral, tem em considerar a agilidade de enredo. É preciso ter em mente que a arte dos quadrinhos tem linguagem particular, em que o fluxo da narrativa se baseia no reconhecimento dos episódios capturados e as lacunas existentes entre quadros fazem sentido ao leitor se o autor tiver êxito em produzir tal relevo ao leitor. Propôs-se demonstrar a atenção dada à oralidade nas HQs independentes como parte integrante da narrativa e como identidade artística: em clara afirmação à ideia de que “o uso da variedade popular, tipo de escrita muito próximo da fala de pessoas simples, é tão eficiente para a expressão artística” quanto à culta, pois está intimamente ligada à ideologia do autor que, neste caso, possui interesse em demonstrar a escatologia como certa narrativa profética – o fim de seus personagens – por meio dos traços e textos. Para finalizar, nada mais coerente observar sobre o papel do quadrinho underground, no Brasil, que a visão de Dino Pretti (2004), suscitada no artigo de Luiz Antônio da Silva (2015, p.149), acerca da linguagem coloquial na construção artística atual:

Além disso, no contexto político-social do Brasil contemporâneo, a linguagem popular, o vocabulário gírio, o estilo comum da mídia romperam as expectativas do leitor e se instalaram também na ficção literária, com artifícios de linguagem que lembram a interação espontânea oral face a face, com sua variação de registros, com a mudança abrupta dos tópicos e subtópicos da conversação […].

 

Até um próximo texto!