O quadrinho brasileiro contemporâneo XVIII

Por dentro do Mijo
por Lilli Ferreira

 

No texto passado, fiz uma breve iniciação ao papel da pesquisa e como isso pode ser introduzido, também, na leitura das histórias em quadrinhos. Hoje, abordarei mais sobre a obra de Victor Bello diante do campo da análise da conversação, mais precisamente análise de textos orais, procurando o diálogo com outros campos científicos das Letras para demonstrar quão complexo a visão de mundo nas ciências humanas pode proporcionar em nosso dia-a-dia.

Como já informado anteriormente, Mijo de Cristo tem Poder faz parte da coletânea Goró, organizada por Luiz Berger. A ficção se passa na cidade e versa sobre as desventuras de Rodger, rapaz cujo sonho e realização em ser padre o coloca em situações de atos libidinosos. O ápice de sua saga é o encontro, dentro de um banheiro, com Jesus e a descoberta “milagrosa” acerca da urina deixada por ele no vaso sanitário. Sendo um quadrinho verbovisual, o leitor de Victor Bello possui, em mãos, o exemplo de HQ que se propõe a descortinar todos os papéis sociais possíveis na narrativa, contrastando com o gesso temático e artístico que o mainstream constrange.

No quadrinho, o leitor tem acesso ao contexto da interação conversacional por meio de dois dispositivos da linguagem: (1) textual e (2) ilustrativa.

A descrição das cenas, sempre inscrita em quadros retangulares, difere do diálogo entre personagens por meio de balões.

Partindo da perspectiva da cultura ocidental, há dois tipos de percurso da leitura dos textos nos quadrinhos: as mais comuns são as que vão da esquerda para a direita e as que vão se formando de forma vertical, de cima para baixo. No caso do Mijo, a leitura segue esse percurso canônico – vertical e, predominantemente, da esquerda para a direita.

Na figura 1, pode-se observar Seu Nabor interagindo com dois colegas:

Figura 1 – Mijo de Cristo tem poder, de Victor Bello – Fonte: do autor

Descrevendo a interação da esquerda para a direita, pode-se chegar à seguinte estrutura, cujos interactantes (os participantes do ato conversacional) são indicados como L1, L2 e L3:

 

1     L1: Minha mulé num guenta mais meu estilo bebum de viver.

2     L2: Vish Nabor, bebe pelo cu homi! Cê vai ficá sem bafo e sua patroa num vai nem nota seu estado

3     L3: E foi comprovado por alunos da Oxford que beber pelo cu é mais massa!

 

Dando atenção aos partícipes da interação, encontram-se registros de termos como “num guenta”, cuja assimilação da vogal produz [ɴʊ᷈ˈɠə᷈θɑ] em transcrição fonética; a variação fonética do termo mulher, que sofre uma despalatização de /ʎ > l/, para [ɱʊˈɭɛ] e o substantivo masculino coloquial “bebum”, registrado como beberrão na forma padrão para designar quem bebe demais.

Percebe-se, a redutiva cê – variação da forma pronominal você, utilizada como segunda pessoa do singular e detentora de comportamento sintático peculiar no PB (português brasileiro) falado² – exemplificada na figura 1, dentro de um desses comportamentos, como sujeito pré-verbal diante do verbo auxiliar “vai” em L², fato que não ocorre em L1 e L3.

Além disso, os verbos infinitivos ficar e notar sofrem uma supressão final do “r” no diálogo de L2 – registrados como [fɪˈkɑ] e [ɴɔˈθɑ]. Adiciona-se à fala da mesma personagem a supressão da trava nasal em “homem” recorrente no discurso oral – como observado por Rogério Chociay (1993, p.38-39) em sua análise esticológica sobre Gregório de Matos, essa forma é registrada nas obras do poeta, como trabalho poético com o metro e talvez variedade linguística recorrente já na época de Gregório.

Pode-se verificar a utilização das seguintes variações linguísticas: (1) raça; (2) sexo; (3) idade; (4) contexto e (5) gestos, todos desvelados nos quadros analisados. O que se percebe na figura 1 é a diferença diastrática (variações de grupos sociais) entre L1 e L2 em relação a L3 e de L2 para L1 e L3, este, para dados humorísticos, parece obter certo conhecimento de mundo sobre dados científicos acerca do uso de bebidas alcoólicas que os demais. A ilustração situa três homens que aparentam a mesma idade, contudo possuem dialetos diferentes: L1 e L2 apresentam variedade oral não-padrão, contudo bem construída – sintática e gramaticalmente falando –; enquanto que L3 exibe registro com construção gramatical, sintática e fonética na forma padrão da língua escrita.

L1 introduz o tópico frasal, entendido aqui como tema, “a esposa que não o aguenta mais bêbado”; o ponto final da fala de L1 suscita o fechamento de pensamento e a passagem consentida (Galembeck, 1999, p. 73) para L2, até então ouvinte daquele, iniciando seu turno com a síntese por meio do marcador conversacional inicial, de entendimento e não lexicalizado “vish”, passando a desenvolver um subtópico (que lhe dá oportunidade de demonstrar conhecimento acerca do tópico) : nova forma de consumir álcool para que a esposa de L1 não perceba. A centração da conversa (o falar sobre algo na análise de textos orais) passa de um “embebedar-se sem ser notado”.

Não há a inscrição de fechamento de fala em L² quando se passa para o terceiro balão, nenhum marcador conversacional final é inscrito no registro. Parece haver um assalto a turno sem deixa de L³, apresentando digressão e turno inserido sobre beber pelo cu por conta de informações sobre “pesquisas científicas”.

 

Daqui quinze dias, analisaremos mais quadros da obra de Victor Bello.
Até!