O quadrinho brasileiro contemporâneo XVII

Mijo de Cristo tem Poder, de Victor Bello, para uma análise da conversação
por Lilli Ferreira

 

Retomando as postagens sobre o quadrinho contemporâneo brasileiro neste primeiro trimestre de 2018, nada mais instigante que falar de quadrinho underground e academia.

Quase segunda década do vigésimo primeiro século, no calendário ocidental, com ares de Idade das Trevas, vemos as universidades públicas, mais especificamente as ciências humanas, sendo fortemente atacadas, apontadas como centros de “doutrinação”, “antro de comunistas”. Bem, quando topo com tais comentários na internet (tenho que deixar esta bendita mania de ainda perder tempo com isso) já sei que o autor nunca precisou ler a Ilíada e/ou a Odisseia, fazer escanção nas aulas de latim, discutir as diferenças das cantigas trovadorescas, todos estudos obrigatórios dos cursos de Letras – parte das ciências humanas – ou não percebeu que aquela universidade, antes restrita aos privilegiados sem especulação alguma de retorno social, hoje, passou a atender (ainda que de forma bem irregular nos diversos cursos oferecidos) faixas da população negligenciadas socialmente durantes séculos. As cotas, instituídas por lei em 2012 e planejada para ser um programa provisório para a alteração do status quo da atual sociedade – ainda arraigada na escravidão – são as que mais sofrem tentativas de deslegitimação, mais especificamente a racial. Não bastasse ouvirmos que negros e/ou pobres passaram a ter “privilégio” com as cotas, o ano de 2018 começou com um certo “Magnífico Reitor”, em uma entrevista para um site de grande circulação, relacionando, de forma perigosa, sistemas de cotas com “assistencialismo”. Cabe lembrar que o antecessor deste mesmo servidor público em questão foi responsável por fechar o hospital universitário, que atendia a população dos arredores além do corpo discente e docente da instituição. Pelo menos em uma coisa o atual reitor tem razão quando diz: – “Somos péssimos administradores para manter residências estudantis, para fazer restaurantes ou para administrar auxílios de bolsas. Não é nossa especialidade. Nós não somos muito eficientes nisso”.

Para contrapor a ideia descabida de desqualificar o sistema de cotas, em pesquisa feita pela UNICAMP¹, os cotistas tiveram melhor desempenho que os demais colegas; como disse uma vez, um dos grandes sociólogos de nossa recente história, o professor Jessé Souza, para eles (os cotistas) essa é a única oportunidade que têm.

Hoje, vemos o revival da Ditadura Civil-Militar no Brasil. Primeiro, uma propaganda em massa de desvalorização do ensino público, depois reitores e professores foram conduzidos a depor de forma coercitiva, hoje a liberdade de cátedra está sendo ameaçada por quem deveria ser esclarecido e especializado a ocupar um cargo público na área da Educação.

Afim de demonstrar para os mal-intencionados ou os mal-informados o que estamos a pesquisar nas universidades, vamos começar a falar, a partir de breve introdução de um estudo feito sobre a análise da conversação, com suas bases teóricas como “solicita” Vossa Excelência, o atual Ministro, utilizando o quadrinho independente de Victor Bello como objeto de estudo sobre a interação verbal e não-verbal no texto escrito.

 

INTRODUÇÃO 

Como obras narrativas, os quadrinhos caminham, essencialmente, entre o verbal e não-verbal e essa capacidade em despertar no leitor suas diversas orientações de leitura – seja o visual ou o verbovisual – o faz obras multimodais. Com relação ao trabalho sobre a interação dialógica entre personagens, são muitos os registros que auxiliam o leitor na compreensão textual e, para esse fim, os mecanismos perpassam por marcadores conversacionais (né?, ok?, certo?, entre outros), entonação gráfica (o negrito), troca de turnos, contexto da conversação, expressão corporal e gestos das personagens, entre outros.

Frauzio, de Francisco Marcatti (fonte: do Autor)

Para introduzir a obra escatológica de Victor Bello, é necessário breve contexto do gênero no Brasil. Falar de escatologia é mencionar Francisco Marcatti, considerado um dos grandes mestres do cenário independente (para saber mais sobre este importante artista, acesse o link). Assim como o início da carreira do norte-americano Robert Crumb, ícone da contracultura, ele imprime suas histórias de forma independente e sai pelas ruas a vender diretamente de mão em mão ou em feiras de quadrinhos desde os anos 1970. São muitas as aproximações feitas entre o pai de Frauzio e o de Mr. Natural muitas vezes por conta de seus traços “sujos”, cheios de sombras projetadas por hachuras e pela situação degradante das relações entre personagens e o mundo. Contudo, em Marcatti, o processo de construção temática caminha para outra direção – a escatologia explícita – recorrente em suas produções, cuja imersão no corpo podre da coletividade se contrapõe à linguagem rebuscada nas descrições contextuais feitas pela voz da narrativa (predominantemente) em terceira pessoa… O quadrinista demonstra o aprofundamento da questão dúbia entre belo e monstruoso – temas que apontam ora para aceitação ora para rejeição ao meio social.

Marcatti é ícone para os novos e velhos talentos do quadrinho nacional. Entre eles está Luiz Berger, organizador e produtor do selo Gordo Seboso, cujo trabalho com Marcatti resultou no terceiro número da revista Lasca de Quirica.

Diferentemente dos quadrinhos mainstream, o cenário independente é marcado por maior liberdade artística desde a linguagem visual até a verbal – conforme encontrada na narrativa de Marcatti na figura 1 com personagens hiperbólicos e, claro, mais uma vez a delicadeza da construção verbal aliada à naturalidade do ato conversacional coloquial, do dia-a-dia –.

Atente-se, a partir da análise da conversação, que texto e imagens, neste estudo de O Mijo de Cristo tem Poder, uma das histórias da coletânea Goró, obra publicada em 2013, apresentam cooperação vistas, na análise do contexto conversacional, como um todo coeso.

No próximo texto, veremos como outras visões sobre os quadrinhos podem ser discutidas no terceiro ano.

Até lá, raios!