O quadrinho brasileiro contemporâneo XVI

A SAGA DOS BATE-BOLAS, de Felipe Bragança

Por Antonio Vicente Seraphim Pietroforte

Muitas vezes, a arte é identificada a resistência política. Nessa identificação, geralmente, a qualidade da arte, porque engajada, termina por ficar subordinada às ideologias políticas e, por isso mesmo, pode se enfraquecer. Na história em quadrinhos “Claun – a saga dos bate bolas”, criada por Felipe Bragança, com arte de Daniel Sake, Diego Sanchez e Gustavo M. Bragança, está longe disso: nela, arte e política estão perfeitamente equilibradas, de modo que uma justifica a outra, e isso com bastante ética e beleza.

Logo na capa, com emblema de São Jorge guerreiro matando o dragão, um mascarado surge entre as chamas. O que isso significa? Para mim, pelo menos, teve grande significado, aprendi muito com as tramas dos bate-bolas. Aliás, antes de ler a HQ, não sabia o que seriam os bate-bolas, nem de suas desventuras e de seus desafios.

Em linhas gerais, os bate-bolas são grupos de mascarados. Eles não são uma gang, são grupos de pessoas engajadas com valores e mitologias próprias, que são dramatizadas ao longo da HQ. Os bate-bolas estariam mais próximos de tribos, por isso mesmo, em uma sociedade massificadora como a pré-capitalista existente no Brasil, mais afeita ao trabalho escravo do que ao socialismo, tais grupos devem ser perseguidos e brutalmente reprimidos por forças policiais. Isso parece exagero, mas basta a miscigenação em que vivem os bate-bolas – por isso mesmo, antirracista –, para que sejam vistos como elementos subversivos, o que, a seu modo bastante combativos, eles acabam assumindo e, até mesmo, professando enquanto forma de resistência.

A saga é formada por cinco histórias correlacionadas entre si, todas com roteiro de Felipe Bragança; a arte, porém, fica por conta de Daniel Sake, Diego Sanchez ou Gustavo M. Bragança, que se revezam nas HQs, trazendo diversidade gráfica, cada um deles dono de traços singulares.

Esta é a arte de Gustavo M. Bragança, em “As primeiras máscaras”:

Esta é a arte de Daniel Sake, em “Meu rosto quando imagino”:

Esta é a arte de Diego Sanchez, em “Amílcar e os espíritos”:

Essa diversidade de estilos não vai apenas ao encontro de valorizar graficamente as tramas da história, ela segue correlacionada à fragmentação narrativa dos Bate-Bolas. Sem adiantar o que se passa na HQ, vale a pena mencionar que o roteiro do Felipe Bragança tematiza encontros amorosos, conflitos entre as famílias que compõem os grupos de mascarados, deserções seguidas de traições aos grupos, diálogos com personagens alternativos aos próprios grupos, resistência à repressão policial e presença de elementos míticos. Tudo isso, contudo, sem cair na facilidade de construir sequências lineares, nas quais os capítulos são encadeados uns após os outros. Contrariamente, há muita coisa vaga nas histórias, não por insuficiências do roteiro, mas enquanto recurso estilístico ao tratar de assuntos, por si mesmo, bastante velados, como são os das comunidades tribais.

Além disso, no final do álbum, há bom material fotográfico a respeito das comunidades dos Bate-Bolas, acompanhadas de depoimentos e do belo mapa, com arte do Diego Sanchez, da disposição dos grupos de Bate-Bolas na cidade do Rio de Janeiro.