O quadrinho brasileiro contemporâneo XV

AVENTURAS NA ILHA DO TESOURO, de Pedro Cobiaco

Por Antonio Vicente Seraphim Pietroforte

 

Muitas vezes, eu me pergunto o que seria uma HQ brasileira: a famosa “Turma do Pererê”, do Ziraldo? Ora, mesmo sem boas definições do que seriam temas brasileiros, fica claro que o folclore nacional é algo brasileiro, por isso mesmo, a “Turma do Pererê” é um bom começo… mas também posso começar com “Aventuras na ilha do tesouro”, do Pedro Cobiaco, 2015, edição Mino.

Em “Macunaíma”, de Mário de Andrade, o leitor depara-se, frequentemente, com esta chave de classificação: “Macunaíma” é uma rapsódia. O termo rapsódia vem da música erudita; ele é utilizado para classificar obras compostas a partir de temas com origem em músicas folclóricas ou músicas populares, como, por exemplo, a Rapsódia Húngara, de J. Brahms, ou a Rapsódia em Blues, de G. Gershwin. Composto a partir de menções a temas do folclore brasileiro, o romance de Mário de Andrade aproxima-se das rapsódias em música; de modo semelhante, as “Aventuras na ilha do tesouro” também podem ser consideradas, a seu modo, rapsódias.

Tematizando mitos do folclore brasileiro, as aventuras do Capitão, que surgem fragmentadas entre 8 secções chamadas pelo autor 8 canções, também se articulam com as aventuras de Paulo, a personagem que se apresenta como autor da história.

Em seu papel de narrador, Paulo irradia com sua voz as aventuras do Capitão, faz reflexões sobre sua vida pessoal, sobre seus processos de composição artística, suas influências – em especial as aventuras de Corto Maltese, de Hugo Pratt –. Para mim, a HQ lembra, em termos da análise de Gustav Jung, os movimentos do self.

Em linhas gerais, o self está relacionado a processos psíquicos em que, por meio de símbolos, o inconsciente coletivo nos convida ao desenvolvimento humano. Enquanto símbolos também religiosos – na canção 3, durante os ritos de candomblé, isso é evidente –, os mitos invocados por Cobiaco cumprem, seja no universo do Capitão, seja no de Paulo, essa função. Não quero, porém, reduzir “Aventuras na ilha do tesouro” a ritos de iniciação psíquicos ou mítico-religiosos; há na HQ muito de discurso político e de resistência às mazelas da indústria cultural: o Capitão é, a seu modo, um guerrilheiro. Por fim, resta exaltar a aventura cromática, mas das cores o leitor só pode fruir tendo a novela gráfica em suas mãos.