O quadrinho brasileiro contemporâneo XIX

Por dentro do Mijo
por Lilli Ferreira

 

No texto passado, mostramos a organicidade da interação conversacional da figura 2, que se mostra simétrica por conta da participação de todos os personagens um após o outro, utilizaremos o seguinte quadro tópico para visualizar o esquema da análise:

Fica subtendido que houve delimitação do tópico (do algo a que se está falando) e que este foi levado até o fim, pois, no quadro seguinte, dois personagens são introduzidos à história – a esposa e o médico. Aquela pergunta a este por que o marido está se comportando estranho mesmo não demonstrando sinais físicos de ingestão de álcool.

No campo da Análise da Conversação, o processo de transcrição passa por uma série de regras e procedimentos. Para fins esquemáticos, vamos formar certo tipo de “transcrição” da oralidade em questão que, de alguma forma, dialoga com a do campo da Linguística.

A mulher de Nabor será indicada como L4 e o médico L5.

4     L4: intão Doutor, pelo meus relatos, o que você acha que pode tá aconteceno co meu macho?

5    L5: olha, se pá ele tá esquizofrênico.

Diferente de L2, na figura 2, a mulher de Nabor, utiliza a forma pronominal você, enquanto que o advérbio conclusivo então é empregado para dar sequência (implícito na história) às informações dadas, tendo alteração fonética da vogal nasalizada [ɛ] e para [i], tornando-se [ī’tãw]. Nota-se que o termo “intão” é marcador linguístico verbal lexicalizado (MC), vinculado ao vocativo, tem função interpeladora, direcionada a seu ouvinte, de participação no processo de “interação interpessoal” (Urbano,1999, p.86) e, ao mesmo tempo, conjunção conclusiva.

A supressão (aférese) que ocorre no verbo estar, no presente do indicativo, mostra a variação fonética que ocorre entre acompanhante e médico – /tá/, registrando que tal variação se apresenta entre ambos os sexos e camadas sociais.

A gíria “se pá” utilizada por L5, relacionada ao advérbio de dúvida talvez, marca a variação diastrática que abarca idade (normalmente é utilizada por membros mais jovens) e local (registrado em cidades).

Há uma particularidade com relação à frase “pelo meus relatos”, cuja ausência de plural no primeiro termo “pelo” distingue-se da noção de que o plural em formas coloquiais, via de regra, é “motivada pela organização sintática do português, que permite a ausência de pluralidade nos últimos constituintes de uma locução, mas não no primeiro” (Camacho, p.35).

Os papéis interacionais entre médico e paciente são transpostos a uma situação incomum: o grau de formalidade não ocorre entre L4 e L5. Não parece haver hierarquia entre interactantes (participantes da conversação), mas certa diferença (diafásica) que pode ser tanto relacionada a elementos sociais, destinatário ou diastrática como idade, profissão – que pode ser real ou não na narrativa. Para fins humorísticos, fica-se implícito a real relação entre o falante e ouvinte.

 

Na semana que vem, fecharemos a análise sobre a obra de Victor Bello, dentro de um olhar da análise da conversação, campo da Linguística, e como as histórias em quadrinhos independentes, os zines e outras artes são fontes importantes dentro de uma universidade que procura abertura às linguagens plurais.

Até!