O quadrinho brasileiro contemporâneo XIV

AOS CUIDADOS DE RAFAELA, de Marcelo Saravá e Marco Oliveira

Por Antonio Vicente Seraphim Pietroforte

 

Se está autografado, foi porque comprei em uma feira de HQs. Sou fã da arte do Marco Oliveira desde que li/vi Mute, sobre o qual escrevi uma abreve resenha aqui no Pararraios; quando vi seu nome na capa da novela gráfica “Aos cuidados de Rafaela”, não pensei duas vezes em comprar. Não conhecia, até então, o trabalho do Marcelo Saravá; seu roteiro prendeu minha atenção já na primeira página.

Quem é Rafaela? Rafaela é o feminino de Rafael, o nome de um anjo. “Raphah”, em hebraico, significa “ele curou”; “El” é o nome de Deus; Rafael seria algo como “o curado por Deus”. Ora, Rafaela é, justamente, quase uma enfermeira, seu trabalho é cuidar de pessoas senis ou deficientes. Ela não cura ninguém – pelo contrário, Rafaela pode ser bastante destrutiva –; tampouco é curada por Deus, que sequer é mencionado na história – Rafaela é no máximo neurótica, como todos nós, ela não tem cura –. Contudo, ela surge, nas tramas da HQ, sempre envolvida com doenças. Em outras palavras, em “Aos cuidados de Rafaela” são tematizadas as enfermidades do corpo e da mente e os limites do que seria “cura”, portanto, os limites do que seriam as enfermidades.

Só para ilustrar isso: (1) Rafaela cuida de dona Aurélia, a senhora senil, mãe de Nicolas; (2) o doutor Cabral, amigo de Nicolas, é médico e comete erros em sua profissão, estando a ponto de perder a licença; (3) Tânia, irmã de Nicolas e advogada de Cabral, é lésbica e está em crise conjugal, sendo desprezada pela própria mãe; (4) Rafaela, desenvolvendo sua neurose, cuidava de Adamastor, seu ex-namorado inválido; (5) Nicolas adoece; (6) o romance entre Nicolas e Rafaela só se faz em meio à miséria humana e suas manifestações psicossomáticas, em forma de doenças físicas e mentais. Contar mais é adiantar fatos importantes para as surpresas e desenvolvimentos das tramas; tais fatos bastam, contudo, para entender que se trata de drama humano baseado na solidão, no qual Nicolas se submete a tudo para escapar desse estado.

Em meio a desencontros amorosos baseados em neuroses e obsessões, as tramas só poderiam terminar em tragédias. Em conversas de facebook sobre a novela gráfica, alguém sugeriu diálogos entre “Aos cuidados de Rafaela” e as tragédias cariocas de Nelson Rodrigues. Sim, isso procede, a sexualidade de Nicolas, Rafaela, Adamastor e Tânia lembram as personagens do autor de “Álbum de família”, “Beijo no asfalto”, “Toda nudez será castigada” e tantas outras peças de teatro, romances e contos. Há, entretanto, algumas diferenças significativas.

Nelson Rodrigues foi um reacionário católico de extrema direita; lembro-me de várias declarações suas em depoimentos e entrevistas fazendo apologias do amor conjugal e da virgindade, fazendo afirmações deploráveis de que as mulheres normais gostam de apanhar. Trata-se, entretanto, do melhor dramaturgo brasileiro; sua excelência no teatro, contudo, não apaga a ideologia católico-reacionária de suas obras. Por isso mesmo, quando em suas peças de teatro expõe-se a nudez, mesmo que se exponham também suas contradições, é para castigá-la com moralismos.

Diante disso, os autores de Rafaela são o contrário. Basta ler “Mute”, do Marco Oliveira, para que se perceba o autor intimista, mas nunca moralista e, muito menos, reacionário. O mesmo se pode afirmar do roteiro do Marcelo Saravá quem, diferentemente de Nelson Rodrigues, não julga suas personagens, preferindo antes relatar, com certo distanciamento, as mazelas humanas as quais, em sua história, não têm origens em comportamentos pecaminosos. Se as relações entre Rafaela, Tânia e Nicolas são neuróticas, isso se explica pela solidão humana, condição de quase todos nós, nunca por nossos pecados, invenção espúria de seitas mal-intencionadas.