O quadrinho brasileiro contemporâneo XIII

DORA, de Bianca Ribeiro

Por Antonio Vicente Seraphim Pietroforte

 

Foi na Comic-Con na cidade de São Paulo, em 2015, quando, na secção de quadrinhos brasileiros, conheci a Bianca Pinheiro e sua novela gráfica “Dora”, que tenho autografada por ela. Desde a capa, o olhar penetrante da mocinha Dora, a protagonista da trama, já se fixa em seus leitores:

Tramas como as de “Dora” são chamadas – pelo menos nos estudos literários – narrativas maravilhosas, que se definem em relação às narrativas estranhas e às narrativas fantásticas: (1) nas narrativas estranhas, o sobrenatural advém do equívoco, ele pode ser explicado racionalmente – por exemplo, os ataques de catalepsia das personagens de Edgar Allan Poe –; (2) nas narrativas fantásticas, o sobrenatural oscila entre ora não ser explicado, ora ser explicado racionalmente – muitas personagens de Howard Phillips Lovecraft oscilam entre o sonho, realidades alternativas, ou ambos ao mesmo tempo –; (3) nas narrativas maravilhosas o sobrenatural é uma realidade – histórias de vampiros, lobisomens, zumbis são narrativas maravilhosas –. Dora, portanto, com sua paranormalidade, estaria entre essas últimas; todavia, seus poderes precisam ser observados com mais detalhes.

No universo dos quadrinhos e dos contos de terror, Dora não é a única mocinha paranormal com poderes psíquicos a ter problemas com isso. Consigo lembrar de, pelo menos, mais duas: (1) Jean Grey, dos X-Men; (2) Carrie, a estranha, do romance de Stephen King. Para quem acompanha o Universo Marvel, certamente conhece a possessão de Jean Grey, a boa mocinha dos alunos do professor X, pela entidade Fênix e sua morte – creio que Jean é uma das primeiras personagens principais da Marvel a morrer, em tempos quando isso não era comum –. Para quem aprecia literatura e cinema de horror, lembra-se de Carrie, mocinha paranormal, filha de uma fanática religiosa puritana, que a reprime sexualmente. Quando Carrie menstrua, isto é, entra na puberdade, seus poderes telecinéticos começam a se manifestar; vítima de bullying, ela termina por assassinar quase todos seus colegas no baile de formatura.

Ora, Jean Grey é a boa moça possuída por forças do mal; Carrie é possuída por poderes, segundo sua mãe, vindos das trevas; ambas parecem duas bruxas medievais condenadas por pactos com demônios e que devem morrer. Ao que tudo indica, Dora, com algumas variações, realiza o mesmo tema; Dora é outra variação do tema bruxas ou moças paranormais contra padres, policiais, soldados e cientistas.

A palavra Dora vem do grego dōron, que significa presente. Dora é isso, um presente, entretanto, ninguém se dá conta, pelo contrário, ela é perseguida por todos. Paranormal e, por isso mesmo, bastante sensível, assim que nasce, Dora já parece prever toda a hostilidade em relação às suas singularidades; isso faz de suas ações violentas, antes de tudo, reações às violências sofridas.

Por tudo isso, Dora pode ser lida como HQ que tangencia histórias de horror, contudo, ela também pode lida como literatura de resistência feminina. Dora continua oprimida, entre outros motivos, por ser mulher, assim como Carrie; em ambas, a repressão se intensifica quando entram na puberdade; no caso de Dora, soldados, fortemente armados, são enviados para dar conta dela.

Por fim, resta observar o traço simples e econômico, oscilando entre massas compactas de branco e preto muito bem articuladas visualmente; e o olhar expressivo da heroína da trama: