O quadrinho brasileiro contemporâneo XI – Lobo Ramirez – Heavy Metal Porno Holocausto

Antonio Vicente Seraphim Pietroforte

Certo dia recebo, via facebook, uma propaganda da Escória Comix, do Lobo Ramirez, sobre a série Heavy Metal Porno Holocausto. A série é esta:

Quem é Lobo Ramirez? Certa vez, tive a sorte de encontrar um exemplar de Ejaculator, lançado em 2015 pela Prego Publicações, uma novela gráfica do Lobo Ramirez em que são narradas as desventuras de um monstro de duas cabeças, o JesusSatan.

Meses depois, tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente em feiras de HQs, quando li Tropical Samurai, a história de um pato samurai tentando comer seu dogãokisoba, um sanduíche de yakisoba, constantemente interrompido por outros patos samurais.

Depois li Rogéria, feito em parceria com Fabio Mozine; Rogéria é um anti-Zé Carioca, um papagaio marginal que vive na cidade do Rio de Janeiro.

Diferentemente de Ejaculator, Tropical Samurai – ainda no número 1 – e Rogéria – que já está no número 3 – são produções do próprio Lobo e sua editora Escória Comix – cujo site é escoriacomix.iluria.com –. Assim, eu terminei conhecendo a série Heavy Metal Porno Holocausto.

A série saiu no primeiro semestre de 2017; em seu lançamento, já temos os quatro volumes acima. Para cada volume, uma personagem e sua história: (1) Marlana, em “Necropênis”; (2) Chico Lopes, em “Amor à primeira vista”; (3) Bestialóide, em “Perigo na masmorra”; (4) Valdecir, “Conga conga conga”. Marlana, como o Doutor Frankenstein, faz um monstro formado por cadáveres, mas para fazer sexo; Chico Lopes é um ogro demente, que tem tatuado na bunda um coração com o nome Berger – referência ao Luiz Berger, autor de HQs, editor da Gordo Seboso e amigo do Lobo –; o Bestialoide se parece com o próprio Lobo, que se coloca entre suas personagens desde Ejaculator; Valdecir é o monstro feito por Marlana. As quatro histórias, embora formadas por narrativas que podem ser lidas independentemente, estão correlacionas; os quatro monstrengos fazem sexo grupal na masmorra.

Por que tantos monstros – entre eles o autor e Jesus Cristo – fazendo sexo demencial? Em boa parte da arte, o sexo sempre foi feito por monstros e demônios – que também são monstros –; Lobo está na companhia de Satã, contrária à companhia de Jesus.

Segundo o teórico da literatura Tzvetan Todorov, falar de assuntos tabus, como sexo e drogas, fica mais fácil quando suas práticas são atribuídas a monstros e demônios, que se tornam, assim, metáforas exageradas de seres humanos. Entretanto, artistas como Lobo Ramirez, Luiz Berger, Pablo Carranza e o mestre de todos eles, o Francisco Marcatti, vão mais longe que isso; seus monstros são resistência à massificação da própria beleza, que não é necessariamente “graciosa” – como muitas HQs lançadas no Brasil –, mas tensa, com a exuberância que as tensões podem expressar.

Em um país que vem sendo dominado pelo evangelismo e todas as perversões que os castos carregam na mente, nada como ler Heavy Metal Porno Holocausto. Além disso, cada HQ da série custa R$1,00; mais barato do que qualquer dízimo!