O quadrinho brasileiro contemporâneo XII

CHUVA DE MERDA, de Luiz Berger

Por Antonio Vicente Seraphim Pietroforte

Certo dia, não lembro bem em qual loja de HQs da cidade de São Paulo, encontrei “Chuva de Merda”, do Luiz Berger.

Quem gosta de ler Marcatti e, da nova geração de quadrinistas brasileiros, ler Pablo Carranza e Lobo Ramirez, certamente lerá uma HQ com um gigante bêbado – à semelhança de monstros do cinema japonês, animes e mangás – cagando na cidade e na população, não menos escrota. “Chuva de Merda” é uma coletânea de várias HQs – histórias coloridas, em preto e banco, tiras, … – todas da autoria do Luiz Berger, um exímio desenhista, com roteiros fantásticos.

Meses depois, conheci pessoalmente o Luiz Berger em feiras de HQs e seu trabalho “Goró”, outra coletânea, agora com outros artistas além dele mesmo. “Goró” é uma coletânea temática, todas as histórias tematizam bebidas alcoólicas e seus efeitos.

Chuvas de merda, bêbados, … porque tanta podridão? Em “Chuva de Merda”, Berger apresenta duas personagens: o Rato Robson, um rato de rua gigante; Seu Raimundo, um bêbado de rua. Reunidos na mesma narrativa, ambos são manipulados por Jesus, que se manifesta na forma de lombriga, saída do ânus de um gato morto – esse gato é o Manda Chuva em sua versão de gato de beco, sem a assepsia dos estúdios Hanna-Barbera –. Jesus-Verme os leva a uma festa, em que ambos matam, sem querer, o filho da Satã. Ora, em sua parábola, Luiz Berger reduz tudo ao mesmo submundo; Jesus não é melhor do que Robson, Raimundo, o próprio Satã.

Até o alegre Bolinha é vítima dessa visão deletéria. Bolinha, criação de Marjorie Henderson Buell, é uma criança sossegada; quando surgiram em 1935, Bolinha e Luluzinha contrastavam com as tradicionais crianças terríveis das histórias em quadrinhos, como os tradicionais Hans e Fritz, “Os Sobrinhos do Capitão”, criação de Rudolph Dirks, 1897. No mundo de Berger, todavia, Bolinha é um criminoso antropófago, condenado à prisão por comer um bebê – na HQ, o policial é o sargento Tainha, da Turma do Recruta Zero, de Mort Walker, 1951 –.

Por que macular o Bolinha? Antes de tudo, porque é engraçado! Citar é também homenagear, não se pode esquecer de que nem Bolinha e Luluzinha nem o Recruta Zero são dramas. Depois, porque é uma forma bastante agressiva e eficiente de se contrapor às mazelas da humanidade. Para construir um paralelo ao estilo de Berger, vale a pena lembra, na literatura infantil holandesa, a escritora Els Pelgrom, autora do conto infantil “A Pequena Sofia”. Em linhas gerais, Sofia, uma menininha, está gravemente doente, não pode comparecer à festa de Natal, por isso seus bonecos encenam para ela a peça “O mundo é um vale de lágrimas”. Na peça, os bonecos ganham vida e, ao participar do mundo, ganham também papéis sociais: alguns são ladrões, outros são burgueses, etc. Desse modo, bastante trágico, o ursinho de pelúcia torna-se um abominável cidadão dono de suas propriedades, o palhaço é um ladrão condenado à morte, etc. A seu modo, Berger faz algo semelhante, pois, quando Bolinha ou Jesus habitam outras narrativas, dessa vez mais mundanas do que as mitologias em que foram criados, um é antropófago e o outro, lombriga do mal, ou seja, uma doença.

Além disso tudo, Berger é um desenhista fantástico. Reproduzimos abaixo as páginas de abertura da HQ “A Viagem de Seu Raimundo”, que está publicada na Chuva de Merda e no Goró. Há duas narrativas colocadas em paralelo: a do bêbado imundo e a do rico ocioso. Entretanto, colocadas assim, como saber se o bêbado delira que é magnata ou se o magnata delira que é bêbado? Não importa a resposta, a HQ do Berger tematiza essa dúvida e muitas mais. O que importa, antes de tudo, é a excelência do traço, a riqueza dos detalhes, a disposição dos quadrinhos nas páginas, a composição do roteiro:

Agora, cada página separadamente, para ver melhor:

“Chuva de Merda” e “Goró” podem ser encontradas na Ugra, a loja de quadrinhos dos amigos Douglas Utescher e Daniela Cantuária P. Utescher. A Ugra fica na R. Augusta, 1371 – Consolação, São Paulo, SP, cep 01305-100 –; telefone: (11) 3589-5459.