O quadrinho brasileiro contemporâneo X – D. W. Ribatski

“Fixação por insetos” e “Bastião da Justiça”

Antonio Vicente Seraphim Pietroforte

Durante a feira de histórias em quadrinhos Des.gráfica – que aconteceu nos dias 14 e 15 de novembro de 2016, na cidade de São Paulo, no Museu da Imagem e do Som, o MIS –, eu tive a oportunidade de conhecer dois trabalhos do artista plástico D W Ribatski: “Campo em branco”, de 2013, em coautoria com Emilio Fraia; e “Fixação por insetos”, de 2016, da Coleção Des.gráfica.

As duas narrativas tratam de fenômenos estranhos: (1) em “Campo Branco”, entre outros temas, há a alternância do mesmo lugar em diferentes regiões do espaço – as personagens da HQ se deparam com o fato do mesmo caminho levar a lugares diferentes –; (2) em “Fixação por insetos”, há o tema do duplo – a personagem principal encontra-se com seu duplo, quer dizer, com ele mesmo, mas que, devido a outra história de vida, é outra pessoa –.

As duas HQs tematizam paradoxos, antes de tudo, físicos, uma vez que se trata de descrever o universo por meio de probabilidades; isso faz desses paradoxos, antes de paradoxos psicológicos, fenômenos quânticos. No que diz respeito às muitas interpretações possíveis das histórias de Ribatski, nada impede de ler tais paradoxos enquanto metáforas do sujeito ou expressões de suas leituras do mundo, contudo, uma vez fenômenos autorizados pela Física, com toda a objetividade gerada nessa consideração, talvez as narrativas apontem em outras direções além da subjetividade.

No mundo quântico, em linhas gerais, corpos podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo, o mesmo percurso pode levar a lugares diferentes, a probabilidade de haver dois ou mais corpos iguais entre si existe. De maneira bastante criativa, sem descuidar dos aspectos psicológicos e semióticos em que a fragmentação do sujeito encontra paralelos na Física, D W parece procurar respostas não apenas para as visões de mundo do homem contemporâneo, mas para a realidade material que, cada vez mais, desvenda-se diante dele.

Nessa questão, o autor chega a atualizar, ao lado de outros artistas – na HQ brasileira contemporânea, posso citar, pelo menos, o Thiago Souto –, um tópico recorrente em literatura: as diferenças entre narrativas estranhas, fantásticas e maravilhosas.

Na literatura, são chamadas “estranhas” as narrativas em que se passam fatos singulares, mas perfeitamente explicáveis por meio da razão. Para Tzvetan Todorov, teórico da narrativa que se debruçou sobre tais questões, o conto “A Queda da Casa de Usher”, de Edgar Allan Poe, seria um conto estranho, porque nele todos os fatos são explicados por meio da ciência ou da coincidência: a ressureição da irmã de Usher é, na verdade, o despertar de um ataque de catalepsia; a casa já apresentava sinais de ruína desde sua primeira descrição, por isso nada há de sobrenatural em sua queda sobre si mesma. Já as narrativas “maravilhosas”, como o romance “Drácula”, de Bram Stoker, são baseadas no sobrenatural; seus relatos inexplicáveis, como a existência do vampiro e seus poderes além da vida e da morte, devem-se a mudanças em nossa realidade consensual. As narrativas “fantásticas”, justamente, são aquelas em que restam dúvidas a respeito do insólito, que oscila entre as explicações racionais e a presença do sobrenatural.

Ora, o tratamento dado por D W em suas narrativas é derivado dessa tradição que, afinal, não é apenas literária, pois aparece no teatro, no cinema, na ópera e, entre outras linguagens, nos quadrinhos. Há, porém, uma inovação: aquilo que geralmente seria tomado por sobrenatural nessas narrativas, como o mesmo caminho desembocar em lugares distintos ou as pessoas multiplicadas – que só encontrariam explicação racional por meio da alucinação ou da loucura –, deixa de ser “maravilhoso” para, via Física quântica, tornar-se “estranho” e, até mesmo, integrar-se como mais uma questão, nem um pouco “fantástica”, na vida das pessoas pós-modernas.

Ribatski, contudo, não se detém apenas em questões filosóficas; ele também investe na militância política. Sem deixar de causar estranhamento nos leitores menos atentos, a personagem Bastião da Justiça, criada em parceria com Gabriel Goes, está construída sobre equívocos. Bastião não significa apenas posto avançado para a defesa de um território, mas é a abreviação de Sebastião, que, na HQ, não passa de mais um porco fascista a sujar o Brasil. No papel de Bastião da Justiça, esse vilão homofóbico, católico e neonazista, pretende ser o herói dos reacionários, causando estranheza em quem esperaria vê-lo fracassar e ser derrotado por revolucionários em vez de sair vitorioso. Entretanto, a contestação está justamente aí, na vitória do fascismo e em como a maioria das pessoas ratificam as práticas do infame Bastião, cujo nome, oportunamente, está escrito nas cores da bandeira nacional.

O quadrinho “Bastião da Justiça” faz parte da coleção Ugrito, uma iniciativa editorial da Ugra, do casal de amigos Douglas e Daniela Utescher – A Ugra fica na R. Augusta, 1371 – Consolação, São Paulo – SP, 01305-100; telefone: (11) 3589-5459 –.