O quadrinho Brasileiro Contemporâneo – VIII

Kiko Garcia – Catacumba
Antonio Vicente Seraphim Pietroforte

Nasci em 1964; em 1976, quando a Rio Gráfica Editora lançou a revista Kripta, eu tinha por volta de 12 anos, pude acompanhar todos os números. Para quem teve essa sorte, com certeza se lembra da arte e dos roteiros fantásticos da Kripta; entre os artistas, basta citar Richard Corben. Aquela Kripta brasileira dialogava com os famosas revistas norte-americanas Creepy e Eerie, da década de 60, em que monstrengos apresentavam, regularmente, histórias de terror e ficção científica, semelhantes aos contos de horror, mas em quadrinhos.

Kiko Garcia, em sua produção independente, a revista Catacumba, refere-se a essa tradição de HQs de terror. Contudo, embora fazendo menções às revistas norte-americanas, os trabalhos do Kiko são bem diferentes por, pelo menos, dois motivos: (1) os temas; (2) o traço.

Enquanto nas HQs de terror estrangeiras, e por decorrência disso, em muitas HQs brasileiras, há a presença constante de vampiros, lobisomens, múmias e zumbis, Kiko Garcia evita essas personagens – o único morto-vivo da Catacumba é o simpático apresentador das histórias –.

Isso não significa que o Kiko Garcia se refugie no folclore, tematizando sacis, curupiras ou boitatás. Entretanto, suas tramas são bem brasileiras. Na Catacumba1, o tema é o pavor na escada, na 2, loiras macabras e, na 3, antiquário dos horrores.

  

 

O que faz a Catacumba ser brasileira são as personagens e os espaços narrativos, cuja maioria se refere ao Brasil da virada do século XIX para o século XX. Assim, embora os temas, por serem próximos de lendas urbanas, sejam recorrentes em histórias de terror, a ambientação no Brasil contribui para reforçar o gênero em nosso país. Para dar exemplos disso, na Catacumba 1, na história “Terror na Escada”, uma das personagens é o famoso ladrão anarquista, Gino Meneghetti, que revolucionou os conceitos de assalto e assaltante, no início do século XX, na cidade de São Paulo:

Na Catacumba 2, a história “A Loira do Asfalto” se passa em estradas típicas das rodovias brasileiras, com seus postos de gasolina e borracharias:

Na Catacumba 3, o primeiro quadrinho da história “O Anel da Falecida” é a cena de um galinheiro, ainda bastante comum nos quintais das casas de muitas cidades do interior do Brasil.

Por fim, resta falar do traço. O leitor atento, certamente, percebe a diferença entre os traços largos do Kiko Gracia e o modo realista de desenhar de autores como Frank Frazetta e Steve Ditko, artistas da já mencionada revista de terror norte-americana Eerie. No terror de Creepy e Eerie, os traços, apesar das diferenças entre os artistas, são bastante realistas, tendendo, muitas vezes, à minimização das diferenças, enfatizando, assim, as tramas encenadas pelos roteiristas.

No Brasil, contrariamente, autores de terror como Flavio Colin e Julio Shimamoto diferenciaram-se, principalmente, pela singularidade dos desenhos:

Julio Shimamoto

 

Flavio Colin

 

Ao que tudo indica, o Kiko Garcia segue pelos mesmos caminhos.