O quadrinho Brasileiro Contemporâneo – VII

Pablo Carranza – Smegma Comix
Antonio Vicente Seraphim Pietroforte

No final da primeira quinzena de novembro de 2016, nos dias 14 e 15, aconteceu, na cidade de São Paulo, a feira de histórias em quadrinhos Des.gráfica, no Museu da Imagem e do Som, o MIS. O material da feira foi, predominantemente, o quadrinho brasileiro contemporâneo; na mesa da editora Beleléu, do Rio de Janeiro, eu encontrei Smegma Comix nº1, do Pablo Carranza. Os outros números, eu encontrei depois na Ugra, que fica na Rua Augusta 1371, loja 116, em São Paulo. Smegma pode ser traduzido por sebo, mas aquele que, por falta de higiene, acumula-se nos genitais. No melhor estilo do quadrinho levado a cabo pelo Marcatti, ao lado das históricas revistas alternativas Lodo e Mijo, Smegma está entre as melhores do gênero.

Naquela mesma feira, quem me falou também do Pablo Carranza foi o próprio Marcatti, quando me apresentou o número 1 da revista em quadrinhos Lasca de Quirica, sua produção mais recente, cujo convidado especial era o Pablo, com as aventuras do Playboy de Nazaré, um Jesus escroto, que sai por aí dando porrada nas pessoas.

Quando terminei de ler os quatro números da Smegma publicados até agora, constatei que o tal Jesus era apenas o começo…

Na Smegma 1, a vítima é, basicamente, a indústria cultural. Na história do Rivalino, a personagem que conduz a revista, há denúncias das canalhices típicas dos programas de prêmios, de canais de televisão de extrema direita, como são a Rede Globo, a TV Record e o SBT. Já na Smegma 2, Rivalino monta um fastfood e tem de se haver com a franquia do McDonalds. Nas Smegma 3 e 4, porém, a mordacidade do Pablo Carranza me tocou mais de perto.

Sou formado em Letras, sou professor de Linguística e Semiótica; estudo bastante literatura brasileira e semiótica dos quadrinhos. Na Smegma 3, Rivalino vai estudar poesia.

Nas demais HQs da Smegma 3, o Pablo satiriza Manuel Bandeira e Mario de Andrade. Finalmente, alguém tem a coragem de mostrar o quanto a poesia piegas de Manuel Bandeira, com seu sentimentalismo senil, é supervalorizada, e mostrar o quanto Macunaíma é um romance estranho, que faz apologia do Brasil infestado por malandros e desocupados.

Na Smegma 4, Rivalino comemora o aniversário de seu amigo, o Chupacabra, mas a HQ mais corajosa é aquela em que Pablo desenha a versão cafajeste do Jotalhão, o elefante gentil da Turma da Mônica e garoto propaganda das massas de tomate.

Aliás, Carranza insiste no mundo cão por detrás dos quadrinhos. As melhores histórias são aquelas com as personagens “fofinhas”, como a tira em que, também da Smegma 3, a Enriqueta, da série Macanudos, do Liniers, faz asfixia auto erótica, enquanto se masturba.

Quando tudo fica “fofinho” demais, a ponto de ser alienante, ou quando ninguém diz quase nada, não mais em nome do politicamente correto, mas apenas em nome do politicamente, sempre é bom aparecer alguém como o Pablo Carranza.

Ainda na Smegma 3, na história Comic Book School’s out for Summer, em um futuro infeliz, a HQ se torna leitura obrigatória. Já que todo quadrinho é oficial, isso esfazia os quadrinhos de seus conteúdos mais alternativos, portanto, mais revolucionários; uma vez matéria de escola, a HQ se torna dogmática, a criatividade cede seu lugar para critérios mais normativos e pedantes, inclusive aqueles autorizados pela universidade, cada dia mais reacionária e conservadora.