O quadrinho Brasileiro Contemporâneo – VI

Marco Oliveira – Mute
Antonio Vicente Seraphim Pietroforte

Não me lembro bem onde o encontrei, mas se o livro está autografado, com certeza encontrei Mute, do Marco Oliveira – editora Zarabatana, 2015 –, em feiras de HQs. Suas estórias são pantomimas, ou seja, são quadrinhos sem palavras – as narrativas são gráficas, não há nelas textos verbais –; as HQs são concisas, estendendo-se de uma a duas páginas, geralmente espelhadas. Se fosse literatura, diria que são poemas; poemas em forma de história em quadrinhos.

Essa comparação entre literatura e quadrinhos precisa ser explicada melhor. Do mesmo modo que novelas gráficas podem ser comparadas a romances – os trabalhos de Alan Moore, por exemplo V de vingança e Watchmen – e estórias mais breves podem ser comparadas a contos – os quadrinhos de terror e ficção científica das revistas Eerie ou Creepy –, algumas HQs se aproximam de poemas, seja por sua concisão, seja pelo tom reflexivo que se afasta das narrativas e seus desdobramentos.

Um modo de aproximar HQ e poesia é, portanto, a brevidade; outro modo é abordar paradoxos, como costuma fazer boa parte dos poetas. Para exemplificar isso, escolhi três reflexões do Marco. Eis a primeira delas:

A imagem está distribuída em duas cenas. Na primeira delas, há o desenho do teatro com o titereio, supostamente humano, que se desdobra em mais três personagens sobre o palco: o fantoche (1), fincado na mão do boneco de ventríloquo (2), que, por sua vez, senta-se no colo da marionete (3). No mesmo desenho, Marco Oliveira desenha, por enquanto, três modos de manipular bonecos. Sobre essa cena, porém, surge a segunda cena, na qual revela-se que o titereio é mais um boneco, no caso, um boneco de corda, mas não apenas isso. Nas quatro imagens dispostas sobre o desenho do teatro, talvez apenas o fantoche, sem sombra de dúvida, seja tomado por boneco; o boneco de ventríloquo parece quase humano; a marionete parece um homem. Mergulhando na mesma colocação em abismo dos bonecos, a HQ tematiza quem manipula quem, propondo antes uma reflexão irônica que conclusões obtusas. A seu modo seu modo, Marco Oliveira responde que “quem manipula quem” depende do ponto de vista.

Esta é segunda HQ:

Paralelamente a todas as interpretações dessa HQ, todas elas parecem derivar da ambiguidade visual traçada entre o que está dentro e fora dos quadros: é notável não saber a quem pertence as cabeças e de quais corpos se trata. Ao omitir partes dos corpos e desenhá-los não se sabe sendo de gêmeos ou espelhados, mas de todo modo, iguais, criam-se ambiguidades visuais que desencadeiam narrativas distintas, dependendo de quem mexe com qual cabeça, se sua, se do outro.

Por fim, um último paradoxo:

Nessa terceira reflexão do Marco Oliveira, não se trata de tematizar a opressão e a liberdade por meio do contraste entre duas imagens, mas de tematizar dois modos de opressão, uma pública e outra, privada. Na imagem da esquerda, o senhor que sai de casa não parece livre; rumo ao trabalho a pé, trajando paletó, gravata e portando a tradicional pasta 007, ele é mais uma metáfora do trabalho alienante, que nada tem de libertador. Os vizinhos, oprimidos em suas casas como sardinhas em lata – outra metáfora bem aproveitada –, parecem não ter o que fazer, a não ser espionar o senhor em sua labuta. Cada qual preso a suas condutas, duas formas de opressão tendem a se encontrar entre observadores e observado. Desse ponto de vista, como ver a imagem da direita? Quem são aquelas pessoas, que se encontram atrás da janela? Seriam os fantasmas do senhor, que se vai na imagem anterior? Seriam seus parentes? Seus vizinhos invadiram seu apartamento? Trata-se de outro prédio?

Tudo isso faz de Mute um livro fantástico! Sua mudez é apenas da ordem das palavras; suas imagens, paradoxalmente, dizem muito, inclusive, coisas indizíveis.