O quadrinho brasileiro contemporâneo IX – Fábio Q: Onírica

Antonio Vicente Seraphim Pietroforte

Passando uma tarde na Ugra, conversando com o Douglas e a Daniela, eles me mostraram a HQ Onírica, do Fábio Q.

A Ugra é uma comic-shop; seu endereço é Rua Augusta, 1371, Consolação, cidade de São Paulo. A Daniela e o Douglas são o casal que dirige a Ugra, produzindo e fazendo circular, em São Paulo, o que há de melhor na história em quadrinhos.

Onírica não é uma HQ convencional. Sem dúvidas, trata-se de quadrinhos, mas a disposição deles em um quadro por página, sejam páginas duplas ou simples, e o texto sem balões, dispostos entre as imagens, surpreendem o leitor. Além disso, os traços são difusos, é necessário buscar pelas imagens disseminadas entre as cores e as formas, traçadas com pinceladas largas e empastadas. Com essa técnica, Fábio Q deixa o leitor indeciso entre apreciar os quadrinhos, verdadeiros quadros de uma exposição, e deixar-se transportar pela narrativa. Assim, entre as linguagens da pintura e da HQ, “Onírica” justifica seu título, pois faz com que o leitor, oscilando entre essas duas semióticas, oscile entre o sonho, perdendo-se nos mistérios das imagens, e a vigília, seguindo pelas tramas da história.

Caso resolva seguir pelas tramas, as figuras disseminadas pela HQ assumem, pelo menos, três temas articulados entre si. O primeiro tema trata do lugar de fala da mulher; o primeiro quadro de Onírica é, exatamente, sobre uma mulher calada:

Em seguida, seu espaço é relacionado ao espaço da casa onde ela porventura habita; nessa metáfora entre a mulher e sua casa, o texto se abre em muitos sentidos: (1) a mulher restrita ao lar nas culturas patriarcais; (2) a casa como metáfora do corpo da mulher; etc. Em todos esses sentidos, porém, os percursos pela casa e a busca pela saída são tópicos recorrentes:

Por fim, em suas procuras e descobertas, a mulher é relacionada à rainha dos jogos de xadrez, com seu poder de caminhar sobre o tabuleiro em todas as direções – em todos os sentidos –, quantas casas forem necessárias, contrariamente ao rei, que, embora também caminhe em todas as direções, segue casa por casa, portanto, bem mais devagar.

Eis a cena relacionada aos movimentos do cavalo:

Em síntese, 14 páginas de percursos fantásticos na expressão plástica, nos conteúdos tematizados, nas articulações entre as linguagens da pintura e dos quadrinhos.