O Mangá VIII

DEATH NOTE
Rodrigo Bravo

 

Embora sendo aniversário de catorze anos da série, 2017 foi um ano infeliz para os fãs de Death Note (2003), manga de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata. Graças à Netflix, a quem já dei o devido mérito por chefiar a revolução na linguagem televisiva dos anos 10 em textos anteriores, contamos agora com mais uma adaptação em longa metragem do texto original. Esta, no entanto, longe de repetir o feito da primeira versão cinemática da saga, produzida no Japão no começo da década, comete o mesmo pecado de outras adaptações americanas oriundas de obras estrangeiras: foi emburrecida, diluída em trivialidade, deformada em arremedo de si própria até não ser mais
possível reconhecer sua genialidade original, sob supostos critérios de “acomodação do espectador ocidental” que, longe de refletirem nossa familiaridade e apreço pelas convenções do gênero (pois o já consumimos anime e manga desde os anos 80 do século passado), explicitam, pelo contrário, a mediocridade xenofóbica que ainda assola os produtores, diretores e roteiristas de Hollywood.

Perdoem-me a ira, leitores. Ter de ver o complexíssimo jogo de xadrez entre L e Light Yagami reduzido a perseguições estabanadas à mão armada, ou as personalidades dos mesmos personagens, antes multifacetadas e imprevisíveis, agora distorcidas em pastiche (destaque para a transformação de Light, psicopata frio e calculista, em colegial imaturo e chorão), não me foi experiência muito gratificante. Ao terminar de assistir os dolorosos noventa minutos da novelinha que se me desdobrava só pude pensar no terrível destino reservado às pessoas nascidas no início da década passada: jovens demais para terem acompanhado a série original à época de seu lançamento,
correm o risco de ter seu primeiro contato com o universo Death Note a partir dessa farsa hollywoodiana. Decidi, portanto, pausar um pouco as resenhas sobre publicações recentes do mundo manga para escrever este breve texto, com o objetivo de advertir os jovens leitores, nascidos no terceiro milênio, a que evitem a aberração da Netflix como se a uma usina nuclear acidentada, ou pelo menos a que leiam os volumes do original – nosso tema da Carmela de hoje, obra prima do gênero manga – antes de se aventurarem por essa Chernobyl do cinema. Espero, com isso,
conseguir minimizar o estrago já causado por ela…

Death Note, como já dito anteriormente, é um manga de 2003, escrito por Tsugumi Ohba e ilustrado por Takeshi Obata, publicado originalmente pela Shounen Jump, no Japão, e pela JBC, no Brasil, em 2008. Adaptado para anime em 2006 pelo estúdio Madhouse, ganhou reconhecimento mundial e foi fator importante para o estabelecimento do gênero entre o público nascido na década de 90. Além disso, dado curioso, à época de seu lançamento no Brasil, não era incomum ouvir de colegas terem conseguido convencer até mesmo seus pais a acompanhar a série; feito quase impossível: a imagem do anime e do mangá seguia abaladíssima após programas da falida TV aberta lhes dedicarem dossiês fraudulentos em que mentiam sobre vários de seus aspectos, com o intuito de, por meio do sensacionalismo, inspirar o medo em nossos pais e desviar a audiência daqueles novos e interessantes programas que agora dominavam a TV de volta para seus canais imbecilizantes e decrépitos.

Mas qual a causa do fascínio que Death Note nos exerce? Qual de seus aspectos é responsável por fisgar os cérebros do público com tanta eficiência? Muitos apontam para sua premissa, enredo e personagens. Vejamos: o manga narra a tragédia do estudante colegial/assassino em massa Light Yagami, que, imerso em misto de tédio profundo e ultraje com o que interpreta ser o estado da sociedade, encontra por acidente um misterioso caderno preto, em que se adverte sua regra principal: a pessoa cujo nome for escrito nesse caderno morrerá. Descrente, no início, Light
até mesmo deixa o caderno de lado, tendo-o por pegadinha de mau gosto, mas acaba por levá-lo para casa, movido pela curiosidade. No dia seguinte, ao ver uma garota sendo abordada por uma gangue de delinquentes, Light escreve o nome de seu líder no caderno e o vê morrer atropelado por caminhão após ter um súbito ataque cardíaco. Convencido, enfim, dos poderes do Death Note, Yagami acredita-se agora ser o escolhido para erradicar a Terra de todos os seus malfeitores, e passa a escrever diariamente o nome de criminosos que vê serem noticiados na TV. Nesse ínterim, o protagonista conhece o verdadeiro dono do caderno, o deus da morte (shinigami) Ryuuk, que
começa a acompanhá-lo como observador inconvenientemente neutro e a ensiná-lo sobre as regras de uso do caderno. Light acaba por chamar a atenção da polícia internacional com seus assassinatos, e é caçado pelo excêntrico detetive L, com quem acaba por desenvolver tensa relação mista de amizade e ódio mortal.

Tento reduzir a complexidade da trama a seus constituintes mínimos, com o objetivo de não estragá-la ao leitor que ainda não teve a oportunidade de ler o manga, consciente de meu fracasso. Poucas narrativas conseguem conjugar tantas variáveis e manter-se coesas. Death Note é o tipo de enredo que precisa ser absorvido aos poucos, avesso ao binge watching/reading descabeçado, e demanda atenção de seu leitor. Não raro precisamos retornar aos capítulos anteriores para confirmar os desfechos dos ciclos narrativos. Aqui, até mesmo a personagem mais banal em princípio pode tornar-se crucial no futuro; o menor descuido cometido pode levar ao maior dos fracassos; e nunca
se sabe, de fato, quem de fato está em vantagem no jogo.

Divergindo daqueles que apreciam Death Note mais por sua trama, outros apontam seu agudo comentário social como a causa de seu fascínio. Concordo também com eles: Death Note põe em tela questões importantes para a humanidade e tece reflexões sobre os limites de nossa moral. É nobre ou não a causa de Light Yagami? Deve um único humano possuir poder irrestrito de julgar o outro? Não se tornou Light exatamente o que perseguia após tantos assassinatos? Essas e outras perguntas não são respondidas pela trama, mas postuladas, a fim de que o leitor reflita sobre elas e procure sua própria resposta.

Embora possua narrativa original e muito bem estruturada, bem como discuta questões importantes da condição humana, Death Note, em minha opinião, deve ser lembrado, adicionalmente, pela revolução que faz do manga shounen. Se antes as rivalidades se mediam pela força dos punhos, tal e qual a de Vegeta e Goku em Dragon Ball Z, Death Note possibilitou que a inteligência fosse o maior trunfo dos protagonistas, dando maior complexidade e profundidade a seu relacionamento e possibilitando novos caminhos de exploração narrativa a um gênero de manga que há muito reciclava modelos já batidos. Leitura recomendadíssima, portanto, em todos os seus aspectos!

O mês de Mangá na Carmela fica por aqui! No mês que vem o amigo Antonio Vicente volta com mais resenhas do quadrinho Contemporâneo brasileiro. Até a próxima!