O Mangá VII

DR. SLUMP E O MANGÁ EXPERIMENTAL
Rodrigo Bravo

Dentre os inúmeros gêneros do manga, do shounen ao shoujo e passando pelo mecha, pelo chanbara e pelo ecchi, uma de suas manifestações mais originais e interessantes é aquela das produções ditas experimentais. Geralmente incompreendidas pela crítica como transgressão indevida ou mera curiosidade na rica história dos gêneros artísticos, o experimentalismo é, muito pelo contrário, uma tendência natural de todas as produções artísticas: as mídias de composição, ao longo do tempo, voltam-se sobre si mesmas em diálogo profundo com suas estruturas, de modo que
é nesse diálogo constante que se desenvolvem mudanças significativas nos modos humanos de fazer arte. Sem uma revolução na perspectiva, por exemplo, garantida pela experimentação com novas tecnologias, tais como a câmera pinhole, na arte da pintura, não haveria Renascimento italiano para se opor à iconografia medieval.

Comparando a arte à ciência – talvez as duas produções culturais humanas mais importantes –, veremos que a tendência experimental artística é como àquela que guia o pensamento científico: é por meio de experiências com parâmetros diversos de execução e com a recombinação desses parâmetros que ambas as linguagens são capazes de se reformular e se modificar com o objetivo de levantar e responder novos questionamentos. Se na física relativista as equações são levadas ao extremo quando aplicadas ao núcleo de um buraco negro, o gênero shounen (citarei exemplos apenas do manga experimental, demonstrando sua relevância) tem seus limites delineados e exagerados em profunda reestruturação quando precisa dar conta da narrativa de Saitama em One-Punch Man; se é possível combinar os conhecimentos de biologia que possuímos aos conceitos de astronomia exoplanetária e criar a astrobiologia (ciência que postula hipotéses e teorias sobre formas de vida em outros planetas), o mesmo vale para animes e mangas que combinam gêneros e criam novas formas híbridas de produzir arte, como Excel Saga (que aplica as convenções de praticamente todos os gêneros de anime/manga a cada um de seus episódios, em sequência) ou Kill la Kill (que emprega inúmeros estilos diferente de animação, inclusive o do cartoon americano, a
cada cena).

O fenômeno do experimentalismo no manga – e, consequentemente, no anime – não é coisa rara ou isolada. Há uma verdadeira tradição de obras experimentais compostas nessas mídias, que revolucionam não apenas a estruturação da narrativa, mas também as técnicas de produção desse tipo de arte. Cito, de cabeça, vários exemplos: Sakamoto desu ga?, Jojo’s Bizarre Adventure, FlCl, Lucky Star, Suzumiya Haruhi no Yuuutsu, Tengen Toppa Gurren Lagann, Saint Onii-san, etc., cada um enriquecendo a arte do manga/anime com suas peculiaridades e sua verve. Como toda tradição, a do manga experimental tem mito de origem, e esse mito foi recentemente publicado no Brasil, em
reedição histórica: trata-se de Dr. Slump (ed. Panini), o primeiro manga de Akira Toriyama, também
autor da célebre saga Dragon Ball.

Lançado originalmente na década de oitenta no Japão, Dr. Slump conta a história de Sembei Norimaki, cientista genial porquanto atrapalhado, que cria uma androide superforte a quem nomeia Arale. Por ter a aparência de uma criança, Sembe adota a androide como irmã e a matricula na escola da vila em que moram. Lá, Arale conhece Akane Kimidori e Taro Soramame, jovens delinquentes que passam a ser seus companheiros em inúmeras aventuras e desventuras que se desenrolam ao longo dos capítulos do manga. Superficialmente, a natureza simples da trama
ilustrada nessa sinopse pode levar o leitor a crer ser equívoco classificar Dr. Slump um manga experimental. Concordo: não é no enredo, especificamente, que essa obra inova os paradigmas do gênero, mas em sua expressão. Dr. Slump, diferentemente de outras produções do gênero, é consciente de sua ficcionalidade e se reconhece enquanto manifestação artística. Não é raro ler momentos em que os personagens rompem os limites entre os quadrinhos, como se fossem barreiras físicas dentro da própria narrativa, escapando para os quadros adjacentes e criando novas formas de percorrer a página com os olhos;

Ou ainda páginas com jogos interativos, como esta que pode ser colorida pelo leitor;

E estas, a primeira da série dos Fun Cards e os óculos da Arale, que podem até mesmo ser recortadas
do mangá(!):

Recomendo, no entanto, a leitura de Dr. Slump não só por seu experimentalismo inventivo, mas também pela graça e pela criatividade que seu estilo sitcom confere às narrativas, repletas de personagens vivazes e originais, que, de certo, arrancarão muitas risadas do leitor. Trata-se de obra clássica do manga indispensável para o repertório tanto de fãs de comédia como de arte experimental, celebrada em plena década de 10 do séc XXI com sua benfazeja reedição.

A Carmela dessa semana fica por aqui! Na semana que vem volto para analisar mais publicações do universo manga, com uma resenha sobre o clássico Death Note. Até lá!