O Mangá VI

CLAYMORE
Rodrigo Bravo

Quebrando o ritmo das resenhas sobre os últimos lançamentos do universo manga aqui na Carmela, venho hoje para falar de um título importante do gênero, o qual tive o prazer de ler no primeiro semestre do ano: trata-se de Claymore (2002-2014), de Norihiro Yagi, publicado no Brasil no começo da década de 10 pela Panini.
Ambientado em um continente fictício, retratado a partir da estética medieval, o mundo de Claymore é assolado por temíveis criaturas chamadas Youma, demônios canibais dotados de superforça, que se disfarçam entre os humanos para atacá-los. Para conter a constante ameaça, o grupo conhecido simplesmente por “a Organização” envia, no combate contra os Youma, membros de seu exército de guerreiras geneticamente modificadas, portadoras de espadas gigantescas – daí serem conhecidas por Claymores – e de habilidades especiais, cobrando taxas aviltantes dos vilarejos que requisitam seus serviços. Devido a tal política onerosa de pagamento e ao fato de que as guerreiras são, na realidade, híbridas de humano e Youma, fabricadas para o propósito de possuírem os mesmos poderes dos demônios, as Claymores são relegadas às margens da sociedade e sofrem inúmeras injustiças e preconceitos.

Ao longo dos vinte e sete volumes originais do manga, seguimos de perto o desenrolar da trama de Clare, a mais fraca dentre sua geração de quarenta e sete guerreiras, em sua busca por vingança contra os assassinos de sua mentora e guardiã, Teresa – guerreira Claymore de métodos não-ortodoxos, que cuida da órfã Clare após esta ter sua família destruída por um Youma –.

Diferentemente das demais guerreiras, Clare não teve o sangue e a carne de um demônio misturados ao seu corpo, mas os de Teresa, tornando-lhe apenas um quarto Youma e não metade, como no caso das demais Claymores. Em sua jornada, Clare é acompanhada primeiramente pelo jovem Raki, garoto que encontra em situação similar a que fora encontrada por Teresa, com quem desenvolve profundos elos de amizade, e em seguida por outras guerreiras insatisfeitas com a falta de transparência e com as políticas nefastas da Organização, lideradas pela sexta guerreira mais poderosa da brigada Claymore, Miria, a Fantasma. Como é de costume em mangas de boa qualidade, não acompanhamos somente o desenvolvimento das habilidades de combate de Clare, mas também de sua relação com Raki e com as outras Claymores, que passam a respeitá-la como irmã e guerreira, malgrado sua condição única perante as demais.

Por temer revelar mais aspectos da trama riquíssima ao leitor e furtar-lhe o prazer de conhecê-la por si, recomendo-lhe a leitura de Claymore, por fim, não por seu conteúdo explícito, mas pelo que sua narrativa implica em seus níveis mais profundos e as questões de nossa sociedade que retrata através das lentes do manga. Como disse em meu texto sobre o sci-fi, publicado aqui no Pararraios, o gênero permite ao criador que projete ao futuro e extrapole nossos dilemas contemporâneos, propondo-lhes soluções e os evidenciando no processo: o episódio nove da segunda temporada de Star Trek: The Next Generation, “The Measure of a Man”, por exemplo, lida com o tópico do racismo e da escravidão ao refletir tais temas na discussão sobre o livre-arbítrio e a humanidade do androide Data, que corre o risco de ser considerado “propriedade” e não “membro” da Frota Estelar e desmontado para estudos, mesmo possuindo aspirações, desejos e autoconsciência. Ao deslocar o centro da questão sobre racismo e propriedade privada do nosso ao mundo ficcional de Star Trek, a trama evidencia por contraste a estrutura do problema e denuncia a absurdez dos argumentos que tentam sustentá-lo. Através de tal dispositivo narrativo, portanto, podemos nos abstrair de nossa condição histórica e projetar nossos valores éticos e morais na direção de novos horizontes:
entramos em conflito com nossos próprios preconceitos ao compadecermo-nos com a situação trágica do personagem.

Similarmente ao sci-fi, as narrativas fantásticas também são capazes de evidenciar e denunciar as mazelas da contemporaneidade, uma vez que as transformam em arquétipos sobre os quais suas tramas se desenvolvem. Em “O Castelo Animado” (2004), de Hayao Miyazaki, por exemplo, é claro o apelo à diversidade e a crítica contra padrões de beleza instituídos. Em Claymore, por sua vez, a escolha estética de ambientar o enredo em um mundo semelho ao da Europa Medieval não é mera arbitrariedade: o continente habitado pelas guerreiras é radicalmente paternalista e religioso, sua dinâmica social gera estruturas que desfavorecem as mulheres e as expõem a constante risco de morte nas mãos dos demônios Youma ou abdução pela Organização para seus experimentos bélicos; muitas Claymores foram retiradas de seus lares ou vendidas por suas famílias à Organização, situação que tematiza a condição de mulheres não só do período feudal europeu, vendidas aos conventos da Igreja ou aos palácios de nobreza como concubinas e serventes, mas a de vítimas da instituição do tráfico humano que ainda macula, infelizmente, nosso mundo contemporâneo. Ao celebrar e enaltecer, em contrapartida, a união e a luta das mulheres por direitos iguais e liberdade de vida e escolha, por meio de suas personagens e a caracterização de seus dilemas ao longo da trama, Claymore é, antes de tudo, uma narrativa sobre a emancipação feminina. O manga encaminha, como ocorre para os garotos no gênero shounen, um percurso da passagem da adolescência à idade adulta, inovando ao construir narrativas que lidam com problemas exclusivamente femininos, sem fazer deles caricatura, mas, pelo contrário, conferindo-lhes o devido ar de seriedade e gravidade. Recomendo sua leitura, portanto, a todos os que apreciam não só narrativas originais, mas também questionar seus próprios valores e preconceitos por meio desse incômodo espelho a que chamamos ficção.

A Carmela dessa semana fica por aqui! Na semana que vem volto a comentar publicações recentes do universo manga com uma resenha de Dr. Slump, de Akira Toriyama. Até lá!