O Mangá V – Inuyashiki

Rodrigo Bravo

Tal como todo gênero narrativo, o anime e o manga possuem elementos que os definem e diferenciam em relação a outras mídias. O aspecto estilizado dos personagens, os enquadramentos cinematográficos, a estrutura serializada das narrativas: todos estes e outros elementos contribuem para que reconheçamos a identidade dos gêneros em relação a outros, de modo que, ao vermos produções que tentam imitá-los ou que se deixam influenciar por eles, somos capazes de identificar o plágio ou a homenagem com facilidade.

Um dos elementos mais importantes que definem o mangá – e, consequentemente, o anime –, dificilmente transgredido por autores do gênero, diz respeito à idade dos personagens, sobretudo a dos protagonistas. Não é comum ver histórias estreladas por adultos no universo mangá, povoado geralmente por adolescentes ou crianças e seus respectivos universos e questões. São raros até mesmo protagonistas como Kenshin Himura, de Samurai X, ou Fudou Jun, de Devil Lady, de 28 e 29 anos de idade, respectivamente. Em ambos os exemplos, o roteiro precisou “explicar” sua transgressão, indicando os problemas inerentes ao contexto da faixa etária retratada: Kenshin é um
revolucionário aposentado, que já passara por suas primeiras aventuras e agora se vê novamente perseguido por fantasmas do passado; Jun tem de enfrentar o término de sua carreira como topmodel enquanto lida com seus embates contra os Devilmen. Para o leitor ocidental, acostumado com heróis mais maduros, a importância de tais questões parece ser menor, mas representa grande inovação para a mídia japonesa, acostumada se valer da simplicidade dramática da infância e da adolescência para avançar suas tramas.

Se personagens como Kenshin e Jun são raros no universo mangá, a leitura de Inuyashiki (publicado no Brasil no primeiro semestre de 2017, pela editora Panini), de Hiroya Oku, autor do famoso Gantz, pode espantar – e muito! – os fãs do gênero. O mangá nos narra a história de Ichiro Inuyashiki, trabalhador assalariado de 58 anos, desprezado por seus familiares e sem amigos, que vê sua vida mudar radicalmente quando é diagnosticado com câncer terminal. Desolado e ciente de que, mesmo nessa condição, sua família continuará a ignorá-lo e destratá-lo, Inuyashiki foge de
casa com seu cãozinho, no que acaba por ser atingido por uma nave extraterrestre que cai na terra.

Os extraterrestres, por sua vez, na tentativa de reparar o desastre, reconstroem o corpo de Inuyashiki, que tem seu corpo substituído pela tecnologia alienígena. Curado de sua doença e equipado com armas e jatos propulsores, o protagonista agora se vê não apenas imerso no questionar de sua própria identidade humana, mas também na responsabilidade de usar seus novos poderes para fazer a diferença a outros que, como ele, se encontram desamparados em meio às mazelas do Japão Contemporâneo, como idosos abandonados e desempregados em situação de mendicância. Tal e qual Gantz, a outra produção de Oku, o body-horror à la Cronenberg e a narrativa esdrúxula não é mero choque visual, mas ferramenta narrativa que permite elevar a reflexão sobre questões de natureza filosófica e metafísica às máximas consequências.

Já em seu segundo volume nas bancas brasileiras, Inuyashiki é recomendável a todos os fãs de manga que anseiam por variedade em uma mídia acostumada a protagonistas jovens e tramas que lidam com valores universais. Aviso aos leitores, portanto, que não se deixem enganar pela capa singela dos volumes, ou pelas formidáveis sequências de ação e a qualidade do traço quando os lerem: Inuyashiki não é mera novidade ou joguete do gênero manga, mas narrativa que se vale de sua originalidade para discutir, além da solidão e do isolamento que assombram a vida moderna e a terceira idade, a essência, as imperfeições e os valores éticos da própria humanidade.