O Mangá IV – O Garoto Verme

Rodrigo Bravo

Como a maioria dos leitores que acompanham meus textos já sabem, tenho formação em Letras; mais precisamente, em Letras Clássicas, o que implica maior dose de “cricrismo” no geral e certa intolerância com a forma que o ensino de língua e literatura é conduzido no Brasil.

Reconheço, no entanto, que, no mundo da simplificação deletéria e da escola não voltada ao ensino, mas à produção em massa de aprovados em exames vestibulares, sou voto vencido quando o assunto é introduzir a literatura ao jovem leitor. Muitos de meus colegas, crendo que crianças e adolescentes são algo diferente do homo sapiens convencional, ou seja, incapazes de absorver determinado conteúdo por sua dificuldade, preferem fazer uso das famigeradas adaptações de obras literárias para a “linguagem de hoje em dia” ou, ainda pior, de versões em HQ dos clássicos literários de qualidade, no mínimo, duvidosa.

O problema central destas adaptações comerciais, pedidas sob encomenda para quadrinistas que nem sempre conhecem a fundo o material de origem, e feitas às pressas para corresponder aos prazos da próxima inscrição da FUVEST, é sua incapacidade de capturar, na linguagem verbovisual da HQ, as nuances e as características próprias da linguagem verbal estrita da literatura. Isso ocorre porque, sob o pretexto de “acompanhar de perto o original”, a adaptação fast-food faz o exato inverso: mutila a obra em sua essência, e simplesmente tenta recontar a trama do livro sem inovar nos aspectos formais inerentes à HQ.

No entanto, quando li O Garoto Verme, de Hideshi Hino (ed. Zarabatana), adaptação do romance A Metamorfose, de Franz Kafka – uma das maiores joias da literatura em língua alemã –, fui obrigado a abrir uma gigantesca exceção em minha outrora firme posição ideológica. Não só lia uma nova forma de narrar a trágica história do rapaz que acorda e se vê transformado em bicho asqueroso (Ungeziefer, no alemão original), como também, guiado pelo traço original de Hino, vi o sublime brotar do vil e do grotesco, tal como se lesse um haikai de Matsuo Basho.

O Garoto Verme nos traz a história de Sanpei, um garoto rejeitado pelos pais e maltratado na escola por seus colegas insipientes. Seus únicos amigos são seus animais de estimação, as únicas criaturas com as quais Sanpei consegue se conectar emocionalmente. Em um trágico dia, porém, Sanpei é picado por um verme vermelho, e se transforma, pouco a pouco, numa larva asquerosa.

Tratado agora de maneira ainda pior do que quando era humano, Sanpei se vê obrigado a viver nos esgotos da cidade, isolado da sociedade e convertido em animal nojento. A arte de Hino, plena de engenho, retrata toda a podridão à qual Sanpei é forçado a se retirar, sem deixar de fazê-lo de maneira genuinamente bela.

O Garoto Verme não é simplesmente uma adaptação da obra de Kafka, tampouco uma conversão desta ao estilo e à estética nipônica. O maior trunfo de seu autor é traduzir o contexto kafkiano de rejeição – este do antissemitismo rampante à época, na Europa, e do ódio paterno experienciados pelo escritor tcheco – para a dura realidade do estudante japonês no pós Segunda Guerra Mundial. Responsáveis pela reconstrução da nação e obrigados a carregar o fardo de um país derrotado de forma humilhante, os jovens japoneses – até hoje, em verdade – foram submetidos
a rígido tratamento nas escolas, não sendo-lhes incomuns quadros severos de depressão, isolamento e até mesmo suicídio. Ao transformar Sanpei em Garoto Verme, Hino metaforiza a violência diária sofrida por crianças que, traumatizadas para sempre pelo fantasma da bomba atômica, foram obrigadas a se tornar adultos às pressas, sem chance de escape. O valor da adaptação, portanto, não reside na torpe simplificação de um texto complexo, ou na aparente capacidade de síntese da linguagem visual em relação à verbal, mas na capacidade do artista dar nova vida e contexto às grandes obras do passado, nunca diminuindo-as, mas dando novas dimensões a seus significados.

Com essa última resenha, concluo o nosso mês mangá aqui na Carmela. No mês de Julho, a equipe do Pararraios Comics entrará em férias, mas, em Agosto, quem assume o controle da coluna é o Antonio Vicente, que voltará a falar sobre a HQ brasileira contemporânea. Não percam!!!