O Mangá III – Lobo Solitário

Rodrigo Bravo

O período Edo, também chamado pelos historiadores de Shogunato Tokugawa (sécs. XVII a XIX), é um dos momentos mais importantes da história do Japão. Conhecido, grosso modo, como a “Idade Média” Japonesa, foi marcado por revoluções políticas, guerras civis entre senhores feudais, inovações culturais (o haikai surge, tal como conhecido hoje, com os poetas do período) e pela divisão da sociedade japonesa em duas castas distintas: a dos plebeus, ou o povo comum, cuja função era, basicamente, a de servir ao feudo; e a dos samurais, a casta governante e guerreira, possuidora de privilégios e vastas riquezas. É no período Edo que se solidifica o famoso bushido – o
caminho do samurai – código de conduta e de moral que pauta muitas escolas de artes marciais até os dias de hoje.

Em comparação com as outras eras da história japonesa, a Edo é a mais retratada na arte nipônica. Filmes, romances, poemas, peças de teatro, telenovelas e, é claro, animê e mangá, todos os gêneros já desenvolveram narrativas ambientados no período. Para citar alguns exemplos, o filme Kagemusha, de Akira Kurosawa e o animê/mangá Basilisk, de Masaki Segawa, são verdadeiras obras primas.

No que tange o universo das HQ ambientadas na era Edo, no entanto, é impossível deixar de falar deste que foi, praticamente, o inaugurador da temática: o clássico Lobo Solitário (1970), com roteiro de Kazuo Koike e arte de Goseki Kojima. Para nossa alegria, esse titã da HQ, que teve capas ilustradas até mesmo pelo célebre Frank Miller, está sendo reeditado pela editora Panini, já em sua segunda edição.

Lobo Solitário conta a história do ex-samurai e andarilho (ronin) Ito Oogami e de seu filho, Daigoro, em suas errâncias pelo Japão feudal do século XVII. Oogami, antes samurai e executor do governo central, foi traído por seus rivais e forçado ao exílio e à desonra. Negando tomar a própria vida por meio do seppuku (ou harakiri), como manda o bushido, o ronin opta pelo árduo caminho de ganhar a vida como assassino de aluguel. Sua habilidade no manejo da katana, superior a de qualquer outro espadachim, cuida para que sua fama como algoz se espalhe pelos quatro cantos do Japão, atraindo novamente o ódio de seus antigos inimigos.

Lobo Solitário é responsável por inúmeras inovações na linguagem da HQ japonesa, sendo que muito do que hoje temos por comum em animês e mangás foi primeiramente introduzido na épica saga de Ito Oogami e Daigoro. Sem tirar o valor destas conquistas para o gênero, creio, no entanto, que o ponto mais forte da obra se encontra na complexíssima relação entre pai e filho que se desenvolve entre os dois protagonistas da série. Mesmo sendo pouco mais que um bebê, Daigoro acompanha seu pai em suas contendas e, tal como um autêntico samurai, é maduro o suficiente para se entregar à própria morte, se necessário.

Indubitavelmente parte do cânone não apenas da HQ japonesa, mas mundial, Lobo Solitário é o tipo de leitura que não se recomenda, mas que se exige de qualquer leitor que queira se iniciar nos meandros do gênero. Suas cenas de batalha icônicas e emocionantes, somadas a tramas complexas que dialogam com os aspectos mais sombrios da natureza humana, fazem deste mangá uma verdadeira obra de arte.

Na semana que vem, estarei de volta na Carmela para resenhar o mangá O Garoto Verme, de Hideshi Hino, releitura do clássico A Metamorfose, de Franz Kafka. Não percam!