O Mangá II – One-Punch Man

Rodrigo Bravo

Desde a Ilíada de Homero (c. 800 a.c.e.) e a tradição da épica greco-latina, todo herói de narrativas de ficção possui um ponto fraco que o define: Aquiles tem seu maldito calcanhar, Odisseu, sua irremediável presunção, Eneias, sua piedade exacerbada. Se saltarmos milênios no futuro, encontraremos o Super-Homem tendo de lidar com a famigerada kryptonita e até mesmo o temível Magneto enclausurado em uma prisão de plástico. Já no universo dos animês e dos mangás, basta segurar a cauda do jovem Goku para que toda sua força hercúlea se esvaia num piscar de
olhos, e basta o comando “senta!” para que o rebelde youkai Inuyasha se prostre, feito cachorrinho, aos pés de Kagome.

Fraquezas, de um ponto de vista narrativo, são ferramentas eficazes para humanizar um personagem e torná-lo mais verossímil e interessante. Afinal, a perfeição é algo incômodo, simplório e barato: todo o drama engenhosamente estruturado de Kill la Kill, por exemplo, iria pelo ralo num piscar de olhos, se a protagonista Ryuko Matoi não aprendesse com seus erros e derrotas e adquirisse novas habilidades e poderes para superar as adversidades.

Recentemente, no entanto, um originalíssimo mangá ousou subverter essa condição narrativa. Trata-se de One-Punch Man, criado pelos autores One (argumento) e Yusuke Murata (arte), editado no Brasil desde o ano passado, pela editora Panini (atualmente em sua sétima edição).

One-Punch Man nos conta a saga do aspirante a herói Saitama, que, parafraseando o próprio, treinou com tanto afinco ao ponto de perder seus cabelos e suas sobrancelhas. O estético, porém, é compensado pela eficiência: Saitama é invencível, nenhum inimigo pode feri-lo, e todas as lutas em que entra são resolvidas com um único de seus socos, capazes de destruir instantaneamente qualquer oponente.

Mas a trama de One-Punch Man passa longe do comum. O herói mais poderoso da Terra padece de um grande problema: por jamais conseguir encontrar um inimigo à altura, Saitama é sempre apático, dominado pela frustração. Para piorar as coisas, a associação dos heróis – órgão burocrático que representa os vigilantes que trabalham na cidade – não vê Saitama com bons olhos, crendo ele ser um charlatão e aproveitador, e seus demais colegas o boicotam e destratam, por conta de sua aparência tacanha e estoica.

Sucesso incontestável no Japão – tendo até mesmo sido adaptado para animê e publicado em tankobons individuais –, One-Punch Man é perfeito para os fãs do mangá experimental e para aqueles que veem a perfeição não como bênção, mas como maldição.

A Carmela dessa semana fica por aqui! Na semana que vem volto para falar de um dos grandes clássicos da HQ japonesa, Lobo Solitário, leitura indispensável para todo fã do gênero!