O Mangá I – Parasyte

Rodrigo Bravo

Os leitores do Pararraios Comics já sabem: sou um fã declarado da cultura japonesa. De sua literatura à sua culinária, consumo com avidez tudo o que vem do povo Yamato. Esse gosto, claro, como costuma ser entre os nascidos nos anos 90, teve seu início com o mangá e com o animê. Dificilmente abandono o segundo – sempre reservo as noites, antes da chegada de Morfeu, ao ritual de assistir aos meus favoritos –, no entanto, obrigações de trabalho e outras agruras da vida adulta me impediram de cultivar, contra minha vontade, minha longeva relação com os quadrinhos japoneses.

Contrariando, porém, os obstáculos que me afligem, comecei a retomar, gradativamente, meu hábito de ler mangá. O transporte público, muitas vezes, ainda que aos trancos e solavancos, são meu constante espaço de leitura. Lembro-me, saudosamente, de quando economizava o dinheiro do lanche para comprar a mais nova edição de Death Note, editado na segunda metade da década de 00 pela editora JBC – bons tempos idos –. Hoje, um pouco melhor  equipado de moeda – mas nem tanto –, posso me dar ao luxo de comprar mais do que um ou dois títulos mensais.

Durante o ano passado e o primeiro semestre deste, tive as viagens de metrô acalentadas por quatro títulos excelentes, sobre os quais falarei durante o mês de Maio, aqui na Carmela. Peço, aos leitores mais calejados e atualizados do que eu, que me perdoem se falar de coisas já consideradas velharias: não quero falar de lançamentos ou novidades no mercado, mas oferecer meus breves comentários sobre estes mangás que, tal e qual Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco e Yu Yu Hakusho em minha adolescência, fisgaram meus olhos e neurônios. O primeiro título sobre o qual falarei na resenha dessa semana é Parasyte, de Hitoshi Iwaaki, originalmente publicado no Japão entre 1991 e 1992, e lançado no Brasil em 2016, em dez belíssimas edições, pela editora JBC.

Em Parasyte, seres alienígenas, similares a esporos, chegam em massa ao Planeta Terra. Estas criaturas parasitas – tal como o nome do mangá nos adianta –, instalam-se nos cérebros de outros seres vivos, assumindo controle de seu sistema nervoso central. Sedentas de carne e sangue e equipadas com corpos maleáveis, capazes de se disfarçar instantaneamente e de produzir lâminas afiadíssimas, os parasitas começam a caçar e devorar humanos.

Nosso protagonista, o estudante colegial Shinichi Izumi, no entanto, tem um destino um pouco diferente de outros infectados: por estar dormindo de fones de ouvido, o parasita tem seu caminho para cérebro do jovem barrado, acordando-o no processo. Shinichi se assusta com a criatura e se protege, o que acaba, acidentalmente, fazendo com que ela se aloje em sua mão direita.

Incapaz de tomar controle da mente de seu hospedeiro, o parasita desenvolve consciência própria, tornando-se simbionte a Shinichi, que o batiza de Miggy (nome que remonta à palavra migi, em japonês, que significa direita). Agora, além de ter que lidar com um Japão infestado de monstros alienígenas assassinos, nosso herói precisa também aprender a conviver com seu mais novo colega, e vice-versa, numa ferrenha luta por sua sobrevivência.

Mas não se enganem, leitores! Parasyte não é um mangá shounen como manda o figurino. Em vez de combates vazios, personagens unidimensionais e narrativa linear, oferece uma reflexão profunda sobre a efemeridade da vida humana e nossa insignificância perante o cosmos. Somos levados, no desenrolar de sua trama, a questões inquietantes e provocativas como seremos um dia superados na cadeia alimentar? Se sim, qual o papel e o valor da vida humana, uma vez que somos apenas mais uma espécie dentre várias? Como lidaremos com o surgimento de outra espécie tão inteligente e forte quanto a nossa (ou mais…)?

Se as crises existenciais estiverem indo bem, portanto, e o leitor quiser se aventurar não só por pesados questionamentos filosóficos, mas também por cenas de violência do nível dos filmes de Sam Peckinpah e David Cronenberg, Parasyte é minha primeira recomendação!

Por hoje é só aqui na Carmela! Na semana que vem volto para falar do herói mais frustrado da história do mangá: o invencível Saitama e suas aventuras em One-Punch Man!