O Grotesco nas Artes – Parte 4

A mácula do éthos
Rodrigo Bravo

 

 

Na semana passada falei sobre a destreza da técnica de Luiz Berger e do surrealismo grotesco em Chuva de Merda. Como nos voltamos, então, a análises que priorizavam a forma de manifestação de determinada mídia (a HQ, no caso), veremos agora como o grotesco pode surgir no conteúdo de uma obra. Mais precisamente, mostrarei como o grotesco pode ser encontrado na construção do caráter de um personagem e quais suas funções principais na narrativa.

E para falar de um personagem de caráter grotesco, não há como eleger melhor exemplo do que o nosso querido (e odiado) Eric Cartman, criado por Trey Parker e Matt Stone.

"Moooooooom..."

“Moooooooom…”

Em setembro desse ano vimos a estreia da vigésima temporada da série South Park na televisão. Produzidos praticamente na semana em que vão ao ar, os episódios do cartoon conseguem abordar temas atualíssimos nacionais e internacionais. Um destaque disso, por exemplo, é o episódio “About that night…” (2008), que usa excertos do discurso de posse de Obama apenas 24 horas depois deste ter sido proferido! Os produtores da série são tão pontuais que, em 268 episódios até então, só se atrasaram uma única vez, não por preguiça ou falta de ideias, mas por conta de um blecaute que deixou Culver City em breu total. Seguindo ainda firme e forte em audiência, e com prospectos de indefinidas renovações de contrato, a série pode agradecer muito de sua fama a seu personagem mais infame.

Incontáveis são os crimes, malfeitos e máculas morais de Cartman: o personagem já matou inúmeras vezes, cozinhou os pais de um garoto que tentou enganá-lo, prendeu seu coleguinha Butters em um bunker antibombas para tomar seu lugar num passeio, tentou exterminar os judeus, possui orientação política claramente nazista e racista, persuadiu pessoas a cometer suicídio, trata suas colegas e mãe com misoginia, cometeu genocídio e, para coroar a interminável lista, alterou o passado e o futuro, causando guerras entre toda a humanidade, só porque queria comprar um Nintendo Wii. Mesmo assim, com toda essa extensa ficha criminal, Cartman nos fascina (talvez porque queiramos ver qual será o próximo limite que ele transgredirá, se é que ainda há algum limite para fazê-lo…). O grotesco de Cartman aparece menos por sua aparência e mais pela formação de seu caráter; a completa falta de empatia e o narcismo rampante de sua personalidade psicopata, aliados à estrutura narrativa livre e quase surreal de South Park, criam uma personagem única, capaz de fazer do vil Bart Simpson um mero moleque assustado:

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Não citarei como exemplo um episódio no qual Cartman toma o posto central da trama com suas maldades, mas um muito mais sutil, que nos ajudará a identificar algo interessante em sua constituição. Em “Pee” (2009), Cartman e seus amigos visitam um parque aquático; ilhados num vazamento enorme de xixi nas piscinas, nossos protagonistas se veem náufragos num mar de mijo e água com cloro. Eric, ao perceber que está cercado  por todos os lados de hispanoamericanos, afroamericanos, asiáticos e outras etnias diferentes da sua, entra em estado de choque por ter se tornado seu maior ódio: uma minoria étnica nos EUA.

O racismo de Eric Cartman e os argumentos que ele usa para fundamentá-lo, no entanto e infelizmente, não são invenções da cabeça de Trey e Parker. Assim como quando imitamos amigos ou familiares avarentos quando queremos caçoar desse hábito, os criadores de South Park têm em mente a ideologia de um grupo muito específico quando caricaturizam-na através da figura de Eric Cartman: de sua boca suja irrompe nada além das bravatas proferidas pelo setor redneck-republicano-eleitor-de-Donald-Trump e do establishment WASP que capitaneia o irmão gêmeo rico do Brazeel chamado Estados Unidos.

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Cartman, por ter caráter grotesco, permite dar uma nova face a essas vozes racistas e conservadoras. Ao vermos o personagem capaz de tantos crimes graves apoiar esse tipo de discurso, somos obrigados ou a refletir sobre nossos próprios preconceitos, ou a caçoar dos grupos ideologicamente assim inclinados – agora reunidos na figura do personagem –, ou a nos insurgir contra ele e a série por discordar radicalmente de sua representação. De todos os modos, porém, quer no humor, na reflexão, ou no ultraje, engajamo-nos intensamente com a torpe figura de Eric Cartman. Sua existência nos permite criar um avatar, como o mundo Antigo fazia com seus deuses, que representa a totalidade de elementos definidores do mundo em que vivemos: é num garoto psicopata de oito anos, com voz esganiçada e papada, que vemos a epifania do pensamento conservador da direita americana:

Um é a manifestação do trovão, o outro a dos imbecis...

Um é a manifestação do trovão, o outro a dos imbecis…

Com esse breve texto sobre a criatura dos infernos chamada Eric Cartman e seu caráter vil, concluo o mês do Grotesco na Cifra!

Até a próxima! E que não matem o Kenny de novo, bastardos!