O Grotesco nas Artes – Parte 1

Por que gostamos do grotesco?
Rodrigo Bravo

Em fevereiro de 2015, depois de juntar inúmeras moedas guardadas no cofrinho ao longo dos anos, viajei à Holanda para conhecer a bela Amsterdam com os próprios olhos. Protegido, sempre, pela deusa Démeter, calhei de me hospedar logo em frente ao que a cidade tem de melhor:

Peçam pela Lemon Haze; entendedores entenderão...

Peçam pela Lemon Haze; entendedores entenderão…

Quando acabavam os meus ritos matinais (o Blue Sea abre às 6:00, para os interessados), partia em direção à parada dos bondes para pegar o de número 8. Esse bendito bondinho tinha por destino me levar à segunda coisa que Amsterdam tem de melhor, depois das obras da natureza: a Museumplein (ou praça dos Museus).

Os mais lúbricos devem ter pensado que eu diria "Red Light District"...

Os mais lúbricos devem ter pensado que eu diria “Red Light District”…

Como se pode ver na foto acima, na Museumplein estão os três grandes museus de Amsterdam: ao fundo, parecendo-se com um grande castelo, está o Rijksmuseum, onde se pode ver as obras de Rembrandt e outros mestres da Renascença holandesa, bem como peças de história natural; à esquerda, o Stedelijkmuseum, abriga, sobretudo, trabalhos de arte Moderna; atrás dele, por fim, o Van Gogh Museum se dedica a reunir a maior coleção desse pintor, considerado um dos mais importantes na tradição da pintura ocidental.

Aos que estão familiarizados com os quadros do pintor, normalmente é de se esperar a eleição d’Os Girassóis ou d’A Noite Estrelada como suas obras mais belas. Eu, no entanto, ao caminhar pelos amplos salões do Van Gogh Museum e apreciar seu acervo, detive-me por muito mais tempo na contemplação desta pintura, abaixo – tão insólita para os padrões do gênero retrato –  a Caveira com o Cigarro Aceso:

Van Gogh, 1885.

Van Gogh, 1885.

Após longos minutos fitando essa figura tenebrosa, perguntei-me acerca do porque dessa fascinação. Ora, trata-se de uma caveira, símbolo da morte, tragando um cigarro mal-ajambrado; por que iria de me deter no vislumbre disso? O que, em mim, possibilita apreciar essa metáfora para nosso funesto destino quando retratada em tinta e tela, mas não quando manifesta em uma apavorantemente real pilha de ossos humanos?

Propostas essas questões, inicio o tema da coluna Cifra desse mês: O Grotesco nas Artes. Na semana que vem, retomarei nossa discussão a partir da análise do famoso quadro de Goya: Saturno devorando a un hijo. Até lá!