Mulheres e Quadrinhos – I

NERD – TERMO SEM GÊNERO

Lilli FERREIRA

Sim, apresento a introdução com outra ideia sobre nerd.

O quanto isso importa para você? Se importa muito pelo fato de questões sobre classe gramatical, tudo bem, entendo. Você, leitor esperto, compreenderá a brincadeira. Mas se deu calafrios pelo simples fato de imaginar que é o começo de uma bandeira feminista-esquerdista-alienígena-radicalista e correlatos, enganou-se.

Muitos são os comentários vistos em páginas e sites que não possuem nenhum embasamento científico. A internet, como instrumento de socialização, está ficando cada dia mais longe de seu objetivo ou propaganda ideológica. Torna-se cada vez mais utópica.

O que se propõe, aqui, são dois caminhos que parecem se dispersarem na vida cotidiana e, com mais força, entre caracteres das redes sociais quando um humano se dirige a outro: (1) o mínimo de conhecimento da questão e/ou (2) diálogos construtivos acerca do desconhecido.

Assumo que, como leiga no assunto sobre luta e conscientização feministas, proponho nestes próximos textos, inicialmente, pequenas aberturas ao diálogo sobre o papel da mulher nos quadrinhos, não me retendo somente ao mercado mas a outros campos de atuação, como a pesquisa acadêmica, ensino e extensão.

Fredric Wertham

Quando me deparo com discursos de ódio, particularmente, defronto-me com o revés da evolução humana. Acredito que, ocasionado muitas vezes pela falta de inteligência afetiva e de dialética, vivemos em tempos em que, infelizmente, o discurso grosseiro é moda.

O que vejo é a atualização de ideologias obsoletas e histéricas como as de Fredric Wertham e sua turma moralista, que estagnaram o desenvolvimento dos quadrinhos em muitos anos por conta de pressões que culminaram na autocensura por editoras e afetou, principalmente, as histórias de Horror/Terror e Policiais. Sua obra mais conhecida A Sedução dos Inocentes, publicada em 1954, versa sobre a “má influência” que os quadrinhos provocariam sobre a juventude – como se cada esquina escura, esquecida pelo Poder Público, não fosse uma escola do crime, santo Batman?

No entanto, hoje está provado que o psiquiatra fraudou numerosos dados apresentados na produção do seu livro mais famoso – o que demonstra que a Ciência não foi instrumento de pesquisa, mas sim de opiniões pessoais que precisavam de embasamentos urgentes, mesmo que forjados. Por favor, não seja essa pessoa!

Sabe de nada, inocente!

Essa descoberta foi feita, por acaso, pela Professora Doutora Carol L. Tilley, da Universidade de Illinois, durante seu trabalho de campo na Biblioteca do Congresso, nos Estados Unidos. Tilley tinha, em vista, outro objeto de pesquisa, mas não pôde deixar de lado essa parte ainda não contada da batalha dos conservadores contra os “perigosos quadrinhos”.

Nestas primeiras décadas do século XXI, temos acesso a todos os cantos do planeta que são habitados; mesmo ainda que precária em algumas partes do mundo, a internet diminuiu as distâncias e hoje se tornou instrumento popular nas casas e nos celulares. A evolução humana e a tecnológica são duas grandezas que poderiam aumentar proporcionalmente, contudo, do jeito que as coisas andam entre os humanos, a tecnologia perderia, no mínimo, centenas de anos de avanço. Um exemplo dessa visão: o clichê ainda em voga de que a web é uma terra sem lei, em que discursos de ódio ainda são confundidos com liberdade de expressão. Não proponho dizer aqui a origem política de tanta cólera, pois, para mim, um imenso bloco da humanidade se diferencia do resto dos seres vivos por, simplesmente, ter uma capacidade manual mais avançada… O ser contemporâneo tem o mesmo nível de selvageria de uma manada de elefantes ou leões diante dos que não são do seu grupo, mas estes se diferenciam daquele pelo fato de terem dignidade em sua ignorância.

Não venho criar uma ideia de debate (no sentido de bate-boca que o termo tomou) mas de simples conversas – pensemos naquelas regadas a Jazz e cervejinhas artesanais ou vinhos portugueses – sobre o que acontece quando se dá espaço às mulheres e o que poderia se construir ainda mais se os mesmos direitos de diálogo fossem ampliados profundamente.

Na semana que vem, apresentarei a crescente pesquisa científica feita por mulheres sobre o mundo dos quadrinhos e o quanto isso é importante para disseminação da cultura nerd nos, ainda, empoeirados corredores acadêmicos.