Mulheres e Quadrinhos – IV

NO MERCADO

Lilli FERREIRA

 

Nas semanas anteriores, introduzi a participação das mulheres nas ciências. Para fechar este diálogo na nona arte, apresento o trabalho de duas artistas: Paula Mastroberti e Aline Daka – com breve argumento sobre o trabalho da ilustradora de Eunice Mora no Último Andar.

Foto de arquivo pessoal da autora

No começo deste ano conheci, por meio das redes sociais, a Paula Mastroberti, professora do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e que possui diversas publicações no círculo underground há mais de vinte anos. Atualmente, como docente, possui parcerias interessadas em novos projetos em HQ.

Ao lado da escritora Cristina Judar, realizou a produção do livro-arte Luminescências, obra que submerge nos campos da ilustração e contos-poemas, com excertos disponíveis online e que aguarda apoio para publicação.

Em quadrinhos, Mastroberti possui duas publicações: (1) o conto gráfico autoral Adormecida: cem anos para sempre, publicado em 2012 pela 8Inverso, atual Besouro Box.

E (2) “Osmose: O Brasil e a Alemanha em quadrinhos”, pela Editora Libretos, antologia composta de 6 quadrinistas, 3 brasileiros e 3 alemães publicada em 2013.

A publicação foi custeada pelo Goethe Institut e, além dos custos de produção, Mastroberti recebeu bolsa de intercâmbio cultural, tendo a oportunidade de residência em Berlim e podendo criar a HQ. Além disso, a artista participou com o conto gráfico Ubirici e organizou a publicação da revista eletrônica Inverna, dedicada a promover narrativas de autoria feminina, colaborando com o processo e custos de publicação na Social Comics, juntamente com outras organizadoras – já que a Inverna havia ganho a Lei Rouanet, contudo, não conseguiu obter patrocínio.

Ubirici em Revista Inverna, v. 1, de Mastroberti

Conforme a autora, entre suas influências, que perpassam por japoneses a europeus, estão como principais os ilustradores Bernie Wrightson e Arthur Rackham e o gravurista Gustave Doré.

Este ano, Mastroberti expôs na Galeria Hipotética (especializada em quadrinhos) e na UGRA PRESS uma série de charges em homenagem a David Bowie, criadas usando aplicativos para tablet e impressas em fine-art.

Bowing, de Paula Mastroberti, na Ugra Press

Além disso, é fundadora do grupo Mulheres em Quadrinhos, em redes sociais, que inspira a debates sobre a representação e atuação das mulheres como autoras e leitoras de HQs.

Não poderia deixar de mencionar nossa amiga de Pararraios, a ilustradora Aline Daka. Mestranda pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com o projeto SUB – cacografias do desejo, a ilustradora possui, também, extensa carreira em revistas digitais, exposições, HQs, ilustrações para revistas e zines.

Desde 2016 até o segundo semestre de 2017, nosso site disponibilizou o webquadrinho Eunice Mora no Segundo Andar. Com roteiro de Seraphim Pietroforte, os leitores tiveram a oportunidade de observar a arte gráfica de Daka toda segunda-feira.

Obra de Aline Daka

Durante as Jornadas Internacionais de Quadrinhos ECA-USP, em 2017, conheci pessoalmente tanto a Mastroberti como a Daka. Nestes encontros, recebi de presente o zine O Fantástico Anonimato das Andorinhas, impresso pela própria Aline para distribuição durante o evento e o poezine Alucinação Hipnagógica, pela Paula Mastroberti.

Paula e Daka transitam pela experimentação e há muitas características que se podem resultar de pesquisas mais aprofundadas de seus trabalhos; a anulação ou relação entre formas geométricas dos requadros são interessantes. Para analisá-los, a observação de um dos maiores mestres da arte sequencial se faz importante: “O obstáculo mais importante a ser superado é a tendência de o olhar do leitor se desviar” (Eisner, 2012, p. 41). Em trabalho conjunto entre roteirista e a ilustradora no processo de criação, a primeira página de Eunice mostra a sequência de unidades dinâmicas coordenadas por ampliação (Cagnin, 2014, p.189), cujo olhar do leitor se distancia em cada unidade partindo do pé para se expor todo o corpo da personagem no último quadro. A linha diagonal do quarto quadro faz com que o olhar do leitor tenha uma disciplina, deslize deste para o quinto como que descortinando tanto a história quanto despindo lentamente a personagem, desviando o interesse natural do olhar ao sexto requadro – Juliana está à espera do ensaio do baterista, seu vizinho, e o volume do quadro sugere maior dimensão temporal da cena contida.

Faço, além disso, uma aproximação do diálogo encontrado na ilustração de Daka e a recorrência do fundo preto com os famosos cut-outs, de Henri Matisse, cujas formas recortadas dialogam com o fundo – a fim de se chegar a uma unidade visual em que uma faz parte da outra.

Série Nu Azul, de Matisse

Em Daka, o fundo penetra a ilustração (às vezes se transforma em uma colcha ou telhados):

Esse recurso dá uma noção do fundo como parte integrante da forma, como se a autora tivesse efetuado delicadas colagens de suas ilustrações nas folhas pretas – transformando a página em superquadrinho.

Para concluir esse percurso do mês de setembro sobre mulheres e quadrinhos, é necessário perceber como coletivos e pesquisas na academia estão ajudando na produção independente da nona arte, principalmente das minorias, sendo principal válvula propulsora do mercado e de vertentes diversas de gêneros no Brasil. Então, essa conversa construtiva sobre a arte não para por aqui.

Nas próximas semanas, a coluna Carmela volta a receber Rodrigo Bravo.

 


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