Mulheres e Quadrinhos – III

NA ACADEMIA – Parte II

Lilli FERREIRA

 

Semana passada, apresentei breves considerações sobre a importante pesquisa de Jéssica Bernardi acerca do trabalho de Aline Lemos, quadrinista mineira. Hoje, retomo o tema acadêmico, indicando a investigação jornalística sobre o fanzine Garota Siririca, de Lovelove6.

Também pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Jéssica Ocaña subverte a visão acadêmica, vista como instrumento de aprisionamento intelectual e identitário por alguns, de forma incrível em seu trabalho de conclusão de curso. Com o título Buceta subversiva: corpo, sexualidade e desejo no zine Garota Siririca, a autora reflete sobre a imposição de poder do patriarcado sobre a sexualidade feminina, com ênfase no trabalho da artista independente Gabriela Masson. Partindo de casos norte-americanos do final do século XIX, a pesquisadora nos expõe como o zine Garota Siririca cobre duas faces históricas das HQs nacionais nas últimas décadas: (1) como zine, objeto de comunicação à margem do mercado consumidor e editorial; (2) temática social, com ênfase à liberdade sexual feminina.

Em um mundo onde preconceitos seculares sobre o corpo ainda imperam, falar sobre sexo e uso de drogas é ser visto de forma depreciativa, senão criminosa. Em Buceta Subversiva, Ocaña parte dos preceitos filosóficos sobre sexualidade e, ainda bem observado, indica como os estudos sobre a questão feminina promoveram discussões que saíram do âmbito doméstico para projetos além sobre a incorporação das mulheres na sociedade: o de mostrar como as práticas do patriarcado cercearam diversas conquistas no século XX, prolongando-se ao XXI. Suas formulações acabam por nos lembrar que, entre outros campos sociais e culturais, não só a inclusão da mulher no mercado de trabalho foi importante, mas alterações abrangentes das relações trabalhistas também teriam peso na busca de equidade em pleno ano de 2017. Como exemplo, pesquisa recente do FGV mostra que quase 50% das mulheres perdem o emprego após tirarem licença-maternidade; neste mesmo estudo, os resultados demonstram que quanto maior o grau de escolaridade, menor é a taxa de desligamento do mercado de trabalho.

Posteriormente, o TCC Buceta Subversiva traz ao lume a abordagem sobre o corpo feminino em todas as multiplicidades de formas e cores despertadas pela ilustradora brasiliense em seu zine – tendo como tema predominante a masturbação – e o consumo de drogas ilícitas – a maconha –, demonstrando como a narrativa de Lovelove6 e interditos são discutidos –. A jornalista expõe os avanços sobre drogas e saúde pública ocorridos em países vizinhos como Uruguai e Chile, opostos à atual vigilância da sociedade brasileira (próxima dos ideais da Idade Média) acerca do prazer e orgasmo femininos.

Demonstram-se, nesses trabalhos (Bernardi e Ocaña) e em outros, que restrições da sexualidade e do espaço social femininos estão cada vez mais frágeis, cujas imposições arcaicas ainda vigentes na sociedade contemporânea vão perdendo seus lugares para exposições teóricas e concretas nas universidades brasileiras de forma gradativa, possibilitando abertura e indicações de casos antes não debatidos. O que salta à vista são como os textos se mantêm bem construídos, didáticos – o que para uma leiga como eu no assunto feminismo é de grande valia – e como buscam explicitar em seus temas o quão as relações de poder afetam as mulheres, principalmente as que a sociedade contemporânea marginaliza.

Hoje, com maior amplitude de organização via internet, não registrar as influências culturais das comunidades negras, LGBTQI*, indígenas, ou seja, gamas de comunidades várias, no mínimo, chega a ser de propósitos longe do movimento, senão embustes. As mudanças têm de superar temas de perfil temporários em redes, a coerência começa em divulgar e/ou compartilhar trabalhos e pesquisas de mulheres. Mesmo que complexa, não se pode deixar que a luta por respeito e igualdade seja usada como instrumento de manipulação dos privilegiados da fortuna, do poder ou da cultura para benefício próprio. O que mais me maravilhou foi que, na nona arte, mulheres e admiradoras estão mobilizando movimentos extremamente fortes, interligados, diversos e centrados, como a Lady’s Comics; As Empoderadas, do selo Pagu Comics; Pesquisa: Mulheres e Quadrinhos, nas redes sociais, entre outros – trabalhando de forma empírica em todas as vertentes existentes e aberta às novas perspectivas históricas que perpassam a civilização. A Lady’s Comics é exemplo: possui numerosas colaboradas e um importante banco de dados de mulheres quadrinistas, o BAMQ!, com registro de 62 mulheres atuando em diversas áreas.

Para terminar, passamos por vinte e um anos de ditadura civil-militar, onde universidades foram cerceadas, professores presos, torturados, exilados e o ensino superior pago (ou seja, para poucos) teve suas portas escancaradas nesse período. É inconcebível escutar, em pleno ano de 2017, que Academia escreve (só) para a Academia ou desmerecer, achando ser cool, o trabalho de quem está na pesquisa acadêmica – estigmatizando estudantes. É de perder a cabeça. Basta acionar o cérebro para lembrar que setores marginalizados pela sociedade ainda lutam pelo direito à educação gratuita, de qualidade e, nesse barco, encontram-se mulheres, negros, LGBTQIs e indígenas que, quando conseguem, ainda têm que lutar pelo reconhecimento nas áreas. Isso ocorre pela infeliz “romantização” da vida do estudante sofrido, aquele que só consegue dormir poucas horas por dia porque precisa trabalhar para pagar os estudos e ajudar a família. E a questão que muitos defensores levantam é que todo mundo acha normal nos EUA isso acontecer… sim, acontece porque a universidade não é paga e, assim como férias e licença-maternidade não são direitos protegidos pela Lei na terra do Tio Sam, muitos estudantes entram no mercado de trabalho já devendo aos bancos. Bem, estamos seguindo esse caminho infelizmente. Não deveria ser assim!

Se o conhecimento é direito universal, basta perceber como muitas universidades públicas procuram, mesmo neste País, disponibilizar suas produções científicas on-line ou promover diversos eventos abertos ao público. Nesse campo das ciências, indico a observação de uma especial amiga ilustradora e colaboradora do Pararraios Comics, a Aline Daka. Perto de defender seu mestrado, em uma conversa durante a semana das Jornadas Internacionais de Quadrinhos da ECA-USP, ela me diz sobre sua pretensão de doutorado e em se tornar professora universitária. Atualmente, Daka dá cursos gratuitos a alunos de baixa renda em ateliês rio-grandenses, além de trabalhar, voluntariamente, na comissão editorial da importante revista eletrônica (n.t) Revista Literária em Tradução, que dá espaço ímpar a esta área das Letras a muitos pesquisadores brasileiros. Eis a ferramenta fundamental contra o machismo: a educação.

O que toda essa cena até aqui conclui: o nível de desconhecimento, aliado ao medo, torna-se aparente nos comentários; o que mais se vê partindo de muitos machistas é “ – Você está louca!” ou “ – Você não sabe o que está falando!”. Bem, orações assim são típicas heranças das tiranias modernas, em que militares diziam para mães de desaparecidos, nas ditaduras sul-americanas, que elas estavam fora de suas faculdades mentais ou que eram desprovidas de qualquer conhecimento acerca das situações políticas-sociais no país. Ou seja, estamos revivendo os mesmos cenários das décadas de 60, 70 e 80 do século passado – retrocedemos em atitudes e discursos trinta anos no mínimo.

O que a maturidade proporciona para muitos é a possibilidade de outros olhares sobre a História; com meus 20 anos, mesmo de periferia, não tinha noção alguma das lutas por equidade e nem das profundas políticas segregacionistas no Brasil. Balzaquiana, aprendi que, diferente dos nossos hermanos da América do Sul, não tivemos Justiça de Transição após o “término” da Ditadura Civil-Militar, mantivemos a mesma auréola de privilégios a quem tinha poder. Apreendi as atrocidades do mundo moderno aos menos favorecidos quando amigos negros foram parados mais vezes pela polícia; gays tiveram que ouvir de mães carolas para pararem de se abraçar, pois estavam com filhos na sorveteria; umbandistas tiveram que celebrar a religião às escondidas por terem recebido ameaças etc. A cada dia, todos me mostram o quanto precisamos subverter o sistema que privilegia a alta burguesia e a política intelectualmente atrasadas.

Por fim, deixo minhas considerações sobre o aprendizado nestes últimos meses sobre o tema: a de que pessoas como Bernardi e Ocaña, com postura coerente com seus discursos, merecem profundo respeito, pois a partir de seus recortes, conseguem abarcar questões sobre diversas minorias dentro do feminismo, abrindo leques para abordagens ainda mais prolongadas.

Aproveito para indicar trabalhos como a da jornalista Karina Goto, autora de Mulheres nas Histórias em Quadrinhos: um olhar para a produção brasileira; Daniela Marino, que defende a importância social da Gibiteca Municipal de Santos em seu mestrado com o título Gibitecas como Polos de Fomento à Cultura e Formação de Público Leitor de Histórias em Quadrinhos: Estudo de Caso da Gibiteca Municipal de Santos; o TCC de Carolina Ito sobre o Vale do Jequitinhonha intitulado Estilhaço: uma jornada pelo Vale do Jequitinhonha, além de seus diversos textos em revistas e, não poderia deixar de mencionar a pesquisa de nossa amiga de Pararraios Comics, Clarissa Monteiro, sobre o quadrinho experimental de Cris Ware: Building Stories.

Além disso, na Ugra Press, ocorre uma tarde de discussões sobre a produção feminina de quadrinhos, às 15h00min do dia 23 de setembro de 2017, chamado O Grito das Minas nas HQs – com participação de Gabriela Borges, Germana Viana, Dani Marino e lançamento do Zine Anarcha Glam e do livro Clítoris.  

Na próxima semana, aqui no Pararraios, os trabalhos de duas ilustradoras brasileiras.

 


Não deixem de obter mais informações sobre:

E, claro, leiam pesquisadoras de HQs:

Para mais informações sobre o trabalho acadêmico de Jéssica Ocaña, siga o link da UFRGS: http://hdl.handle.net/10183/137801

A UGRA PRESS fica na Rua Augusta, 1371 – loja 116. São Paulo.

LGBTQI* é denominação padrão utilizado pelos Órgãos Internacionais ONU e Anistia Internacional que engloba gêneros, orientação sexual e estudos Queer.