Mulheres e Quadrinhos – II

NA ACADEMIA – Parte I

Lilli FERREIRA

Não falarei de esteira, pinos e levantamento de pesos. Dialogarei com o peso da responsabilidade social que a pesquisa acadêmica tem para a sociedade, ainda mais quando aquela vive situações de extremo sucateamento, como as que presenciamos neste ano de 2017. Há poucos séculos, pesquisadoras tiveram direito a trabalhar e estudar em universidades, mas, infelizmente, diversas produções e descobertas ainda são ofuscadas por questões competitivas, produzidas por egocêntricos intelectuais e discípulos medianos, concatenando currículos cheio de elogios aos vários Mestres mal-educados ativos e em evidência nas universidades em vista. Alguns cursos no Brasil, aos olhos do lucro pessoal, vão muito bem, obrigado.

Quando se trata de Mestras, são poucos os que sabem quem foi Vera Rubin na astronomia, por exemplo.

Verinha e seus brinquedos

E, recentemente, o filme Hidden Figures contou a história de três cientistas (Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson) que, pelo fato de serem mulheres e negras, lutaram por reconhecimento em uma agência do governo norte-americano bem comum e que se tornaria conhecida por nós como NASA.

Na foto, as três matemáticas. Não é milk-shake e nem sexta-feira e, mesmo se fossem, vocês não têm nada a ver com isso!

Em pleno século XXI, nosso país ainda deve muito às minorias sociais. Saber que mulheres têm registrado a arte feminina emerge pequena sensação da (idealizada e buscada) democracia, pois, nesse ciclo, toda uma cadeia de produção artística voltada a públicos heterogêneos – e com temas tão diversos – pode ser discutida e compartilhada por toda sociedade.

Limito-me a dizer que qualquer pesquisa que traga adição (tanto em número como em qualidade) do conhecimento é de extrema importância, seja ela feita por qualquer gênero sexual ou social. O que vale dizer aqui, nestas poucas linhas que o formato me propõe, é que o espaço dessas mulheres no ensino superior tem sabor diferente bem particular. Digo isso por três motivos principais: (1) falar da nona arte, ainda mais a underground, é tabu; (2) falar de artistas que não fazem parte do cânone artístico e dos bons modos em meio à sociedade opressora é ser extremamente corajoso(a) e (3) nesse contexto social, ser da academia é ser estigmatizado. Explicarei isso melhor nas próximas exposições.

Passemos aos fatos:

Jéssica Bernardi é formada em História da Arte e produziu monografia para conclusão de curso, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sobre mulheres quadrinistas no Brasil e feminismo. Com o título Aline Lemos, representação feminina e quadrinhos brasileiros, Bernardi perpassa por campos interdisciplinares, explicando contextos socioculturais em sua pesquisa, a fim de compreender a produção artística da mineira:

“A presente monografia aborda a produção de histórias em quadrinhos no Brasil a partir da ótica de uma artista: Aline Lemos, mineira que produz narrativas de temas variados, porém geralmente abordando questões de gênero e feminismo. Para melhor compreender a produção de Lemos, este trabalho apresenta dados sobre o sistema e a produção feminina no país, uma contextualização sobre Belo Horizonte, a cidade de Lemos, alguns autores destacados pela quadrinista e o meio de publicação independente, onde ela se insere. Como forma de tratar da representação feminina no trabalho da artista, um contexto é traçado partindo das artes visuais, trazendo questões referentes ao feminismo e à sexualidade da mulher e como essa se relaciona com seus retratos.”

Em exposições maduras sobre a produção independente no Brasil, Jéssica demonstra o quanto devemos parar para pensar e estudar sobre as artistas brasileiras e suas contribuições às artes. O trabalho de Bernardi traz ao lume o foco no trabalho de Aline Lemos, artista contemporânea, produzindo uma gama didática que suporta o complexo histórico brasileiro das questões de gênero – resgatando artistas pioneiras como Nair de Teffé e Pagu –, perpassando pelo importante (re)conhecimento de obras feitas por homens para o processo de criação de Lemos e disponibilizando informações sobre trabalhos de nosso tempo acerca da representatividade no mercado de quadrinhos: como o Lady’s Comics, Zine XXX, Revista Inverna, entre outros; além de enfatizar a importância dos programas como ProAC e PNBE para a produção independente, a partir da primeira década do século 21.

Nesse novo contexto do mercado de quadrinhos, tornam-se evidentes os coletivos e artistas beneficiados com patrocínios culturais, em possibilidades diversas de publicações, livres das temáticas e diagramações engessadas dos mercados editoriais. Com o advento das redes sociais e de feiras, como a UgraPress e Des.Gráfica, a divulgação ficou, de certo modo, mais acessível – as artes visuais só ganharam com esse contexto –.

Visões preconceituosas vêm perdendo espaço, mas ainda há os que veem os quadrinhos como entretenimento de menor importância cultural nos corredores empoeirados da universidade. E o que dizer trabalhar com objetos de pesquisa fora dos padrões cult comerciais, os chamados underground? Nas Letras, artistas apagados pelos valores culturais e sociais vigentes estão ganhando, aos poucos, suas devidas visibilidades somente nos últimos anos, como Cruz e Sousa e Francisca Júlia. Nas HQ’s, esse boom de publicações possibilitou novas temáticas de pesquisa que vão além dos super-heróis norte-americanos; já não tendo a liberdade criativa cerceada, quadrinistas na atividade têm a possibilidade de produzir obras mais experimentais e pesquisadores, por seu lado, opções diversas de temas.

É importante destacar o quanto é dispendioso estudar, concatenar ideias interdisciplinares e demonstrar resultados de pesquisas; o caminho é árduo e deve, no mínimo, ser entendido como contribuição. A pesquisa de Jéssica Bernardi é uma das aberturas para a atual discussão que tem sido pertinente sobre o papel da mulher na sociedade, neste caso, especificamente, na arte contemporânea. Área tal que, durante os últimos séculos, deixou de registrar importantes atividades de mulheres por conta de uma sociedade patriarcal – a mesma que praticava a venda de filhas, revestida pelo substantivo dote, ou as matava por “questões de honra”. Muitas mulheres lutam para que o apagamento ocorrido durante a História não se repita neste século e buscam o reconhecimento das artistas e críticas de arte, não as deixando passar em branco.

Na semana que vem, mais breves considerações sobre quadrinhos e mulheres acadêmicas: o trabalho de Jéssica Ocaña sobre Garota Siririca, de LoveLove6.

 

Para mais informações sobre o trabalho acadêmico de Jéssica Bernardi, siga em:
http://hdl.handle.net/10183/156753.