Marcatti – 1ª parte

O mercado de quadrinhos no Brasil e o significado escatológico
Lilli Ferreira

Olá, leitores!

Na semana passada, o Antonio Vicente apresentou um panorama sobre o quadrinho português. Hoje, vou falar sobre um mestre do quadrinho nacional, o Francisco Marcatti, reconhecido pela importância e pela excepcionalidade em diversos outros ramos artísticos como, por exemplo, o trabalho de luthier.

Aviso aos navegantes: este artigo possui imagens NSFW.

O COMEÇO PELO MEIO DA HISTÓRIA

O mercado de HQs no Brasil está a todo vapor. Atualmente, grandes eventos ocorrem nas principais capitais (CCXP, FestComix, Ugra, FIQ, entre outros, em várias épocas do ano). Na periferia, a garotada vem produzindo fanzines e bebendo de cursos e feiras, muitas delas oferecidas por casas de cultura. Já a pesquisa acadêmica, mesmo que ainda discreta, vem tomando forma nas principais universidades do país, como as Jornadas Internacionais de Quadrinhos na USP (supervisionado por Waldomiro Vergueiro, da ECA) e das Jornadas de Quadrinhos da UNIFESP (por Paulo Ramos).

A publicação independente obteve um pico extraordinário de lançamentos, com o auxílio de páginas de contribuição coletiva e muita perseverança por parte dos autores. Isso ocorreu com diversas (e ótimas) HQs: Odor Vazio, de Ruis Vargas; Beladona, de Ana Recalde e Denis Mello; Pétalas, de Cris Peter e Gustavo Borges, entre muitas outras.

Além disso, grandes editoras, ainda que discretamente, vêm apostando em autores e desenhistas nacionais nos últimos anos como, por exemplo, Mike Deodato (Pecado Original, Marvel); Gustavo Duarte (Guardiões da Galáxia, Marvel; Monstros, Quadrinhos na Cia.); e, é claro, o repertório eclético das pequenas e incríveis editoras como a Mino, Zarabatana e Cachalote.

Em meio a toda essa “engrenagem industrial”, encontra-se o ofício artesanal e independente de Marcatti. Em casa, usando uma impressora Multilith Offset, datada de 1954, ele vem, recentemente, produzindo a revista Lasca de Quirica, que já se encontra na nº 4, além de fanzines feitos por alunos e ex-alunos de cursos ministrados no Sesc.

lasca_de_quirica

Todo esse processo criativo é verificado em sua página na internet, na qual, de tempos em tempos, o autor posta um pouco de seu trabalho e dá espaço a comentários que dão pequenas noções do tamanho da admiração, tanto de seus leitores como por colegas de profissão.

Ao mesmo tempo que é considerado artesão, o criador de Frauzio pode ser comparado a grandes empresas automotivas, com seus setores de engenharia e marketing. Ele mesmo produz desde a ideia, passando pela meticulosa montagem, até a distribuição.

Para abordar o trabalho de Marcatti, utilizarei as três últimas publicações (sejam de autoria própria ou colaborativa: (1) Mariposa; (2) Dedos Mágicos, com colaboração de Laudo Ferreira Jr.; e (3) Cavacos.

mariposa_dedos_magicos  cavacos

Começarei procurando uma palavra corriqueira: escatologia.

  1. AS ESSÊNCIAS EM UMA PALAVRA

Com seu traço inconfundível, os três quadrinhos mencionados têm suas similaridades e diferenças. Mas, para começar, é preciso descrever e ampliar certas particularidades na essência da obra de Marcatti.

Em entrevistas e artigos sobre o autor, uma adjetivação é recorrente: escatológica. Por vezes, ela é seguida por palavras como “obscena”, “asquerosa” ou “nojenta”. Eu me perguntei se escatologia era só isso ou se havia alguma outra possibilidade de definição. Entender Mariposa e qualquer outra HQ como suja e obscena é um olhar aceitável, porém, as obras vão além disso.

Buscando caminhos diferentes, consultei, inicialmente, os dicionários Houaiss e Michaelis e, lá, encontrei duas entradas para a palavra “escatologia”:

es.ca.to.lo.gi.a¹

sf (escato1+lo2+ia1) 1 v coprologia 2 Literatura obscena 3 Interesse pelas coisas sórdidas ou obscenas (em literatura, por exemplo).

 es.ca.to.lo.gi.a² sf (escato1+lo2+ia1) 1 Ciência ou teoria do destino ou propósito último da humanidade e do mundo. 2 Teologia Doutrina do destino último do homem (morte, ressurreição, juízo final) e do mundo (estado futuro) 3 Tratado de escatologia.

 escatologiaO que era simples constatação virou algo sério: a primeira entrada é senso comum, mas a segunda é surpreendente para os mais leigos, pois liga a palavra a uma Ciência. Com suspeitas em mente, fui perguntar ao amigo de Pararraios, Rodrigo Bravo, como a mesma palavra “escatologia” poderia dizer coisas completamente diferentes.

Segundo ele, são duas raízes diferentes vindas do grego, uma significando “último” e outra, “excremento”. Aquela (eskhatología) é o discurso sobre o destino final da humanidade, enquanto esta (skatología) é o discurso sobre os excrementos.  Sendo breve, de forma diferente do que vemos em inglês – em que podemos diferenciar eschatology de scatology –, o processo de mudança linguística fez com que ambas procedências passassem como “escatologia” para o português.

Após encontrar as duas possibilidades sobre escatologia, passarei a pontuar, na próxima semana, como as duas ideias distintas se complementam na composição narrativa de Mariposa, Dedos Mágicos e Cavacos.

 

Até lá, raios!