HQ Experimental – Parte 3

A arte experimental nos quadrinhos
Antonio Vicente Seraphim Pietroforte

Na semana passada, o assunto foi a pantomina. Depois, comparei as narrativas simples do Yellow Kid e do Henry/Pinduca com a experimentalismo narrativo de alguns autores da coleção Cachalote 1000. No texto desta semana, vou aprofundar um pouco mais o tópico da narrativa nas HQs.

Vale lembrar, ser uma narrativa linear em nada interfere na qualidade da HQ. Na maioria das vezes, HQs de terror, erotismo e super-heróis são lineares; autores importantes na história das HQs fazem narrativas lineares: Guido Crepax, em muitas aventuras da Valentina; Hugo Pratt, em Corto Maltese; Liberatore, em Ranxerox; Hergé, em Tin Tin.

A linearidade é apenas mais uma das muitas formas de construir narrativas, sua estrutura é tão codificada quanto as demais. Entretanto, a preponderância do uso leva a naturalizações da linearidade, fazendo crer que ela se adequa ao fluxo dos acontecimentos e fatos do mundo, ou seja, fazendo a linearidade parecer mais “verdadeira” que as demais formas de narrar. Uma vez codificada como uma norma de leitura, quaisquer alternativas ao uso da linearidade podem ser lidas como experimentalismo narrativo.

Há, porém, outros modos de experimentalismo narrativo. Sem deixar a linguagem da HQ, vou comentar três deles: (1) personagens pouco convencionais, que causam estranhamento; (2) o recurso a mais de um estilo de desenhar na mesma HQ; (3) recursos visuais que apontam para linguagens distintas da linguagem dos quadrinhos.

(1) personagens pouco convencionais

Personagens inusitadas colocam em xeque a linearidade. Personagens inusitadas causam estranhamentos; tais estranhamentos perturbam o fluxo narrativo. Vou dar quatro exemplos em ordem crescente de estranhamento:

(1.1) em O plexo holístico, de Diego Gerlach, número 6 da Cachalote 1000, um bêbado, em seu mal-estar, se vê às voltas com super-heróis, lobisomens e animais de rua – Gerlach coloca, no mesmo cenário, personagens de universos distintos do imaginário das HQs –;

plexo

(1.2) em Eu quero ser uma locomotiva, do Luiz Gê, personagens de diversos mundos imaginários, como soldados nazistas, terroristas árabes, índios norte-americanos, discos voadores e bandidos do morro tentam parar uma locomotiva em alta velocidade – novamente, o delírio em torno das personagens –;

luiz_ge

(1.3) em Errare marcianum est, também do Luiz Gê, as personagens são ainda mais delirantes, os monstrengos de Marte não fazem referências a personagens próprias de gêneros específicos;

errare

(1.4) nas HQs de Rick Griffin, publicadas na Zap Comics, são perdidas as noções de personagem; a narrativa se desenvolve por meio de formas plásticas difusas e com múltiplas significações.

zap

(2) presença de diferentes estilos de desenhar

Manter um desenho regular ao longo da HQ reforça a linearidade narrativa; desenhos regulares evitam que o leitor desvie sua atenção da narrativa para questões propriamente plásticas. Dois ou mais modos de desenhar revela modos distintos de construir a realidade, interferindo, assim, no andamento linear da história. Vou dar três exemplos em ordem crescente de multiplicação de estilos, dessa vez, em ordem crescente de sua complexidade:

(2.1) em Quem matou Papai Noel, do Luiz Gê, uma das personagens, o Cara de Bola, é uma caricatura em meio a personagens e lugares desenhados com traços menos estranhos;

cara_bola

(2.2) em Tubarões voadores, ainda do Luiz Gê, o estranhamento não se deve apenas a uma personagem: os tubarões têm traços quase realistas, enquanto os habitantes da cidade variam, incluindo caricaturas;

tubaroes_voadores

(2.3) Bill Sienkiewicz combina estilos diferentes ao longo de todo o texto de suas HQs, valendo-se de colagens, xerox, nanquim, aquarela, etc.

bill

(3) encaminhamento de outras linguagens

Em linhas gerais, a linguagem da HQ é linguística e visual, realizada nas duas dimensões do papel e com as imagens desenhadas. Uma vez formada, essa linguagem pode ser combinada com outras linguagens. Seguem quatro exemplos, dispostos em graus de maior distanciamento de HQs mais convencionais:

(3.1) em 11, de LTG, o número 9 da Cachalote 1000, sugere-se que, em cada página, os quadrinhos, sempre seis, devem ser recortados e montados como se fossem cubos; isso subverte a ordem usual de leitura, portanto, subvertendo a linearidade narrativa.

11

(3.2) em O lobisomem, de Eduardo Belga, agora da coleção Cachalote Franca, a capa e a contracapa podem ser recortadas, formando bonecos de papel. Os bonecos interferem na HQ, projetando seu universo para fora das duas dimensões do papel e da estabilidade de seus desdobramentos narrativos; uma vez nas mãos dos leitores, os bonecos são interativos, inaugurando outras histórias fora do texto;

lobisomen

(3.3) a Borba Gata, do Luiz Gê, é uma HQ desenhada sobre o corpo de um manequim; trata-se de uma HQ em três dimensões. As duas dimensões da HQ garantem sua leitura linear, que são multiplicadas nas muitas formas de ler o corpo do manequim;

borba_gata

(3.4) Building stories, de Chris Ware, são cartões para recortar e montar, cabendo ao leitor interagir com as narrativas propostas, desdobrando-as em seu fazer sobre os textos.

building_stories

Na semana que vem, vamos comentar melhor as relações entre o experimentalismo e a articulação da HQ com outras linguagens.

Sobre o experimentalismo com a narratividade da HQ, muitos dos exemplos dados são de HQs do Luiz Gê. Todos os textos citados estão analisados com mais minucia no meu livro “Análise textual da história em quadrinhos / uma abordagem semiótica da obra de Luiz Gê”, em que analiso seis HQs suas, reproduzidas integralmente.