HQ Experimental – Parte 2

Língua e imagem na linguagem dos quadrinhos
Antonio Vicente Seraphim Pietroforte

Na semana passada definimos narrativa linear: a narrativa linear é construída em ordem cronológica, seguindo relações de causa e efeito. Afirmamos que as HQs são linguagens e a afirmamos também que a linearidade narrativa é um dos muitos códigos que formam essa linguagem.

Assim como a narrativa, as relações entre a língua e as imagens fazem parte da linguagem dos quadrinhos. Tais relações, embora hoje sejam corriqueiras nas HQs, constituíram uma das questões básicas em sua formação.

Recorrendo a dois artistas, Töpffer e Outcault, considerados fundadores da linguagem dos quadrinhos, encontramos dois modos distintos de resolver a relação língua-imagem nas HQs:

(1) em Töpffer, os textos são legendas sob as ilustrações;

topffer

(2) em Outcault, os textos são escritos na camisola do Yellow Kid.

outcault

Töpffer viveu na Suíça, nasceu em 1799 e faleceu em 1846, sua relação com as HQs é mediada pela arte da ilustração; Outcault viveu nos Estados Unidos, nasceu em 1863 e faleceu em 1928, sua relação com as HQs é mediada pela tira de jornal. Há entre os dois precursores dos quadrinhos um oceano de distância, um século de diferenças, mídias bastante distintas de atuação.

No que diz respeito às relações língua-imagem, percebe-se, seguindo o processo histórico de formação da linguagem dos quadrinhos, duas etapas:

(1) a diferenciação da relação ilustração/ legenda – como aparece em Töpffer –, na qual a língua e as imagens se encontram separadas em espaços distintos, como se dá na relação texto/ilustração nas páginas dos livros;

(2) a inserção da língua no mesmo espaço em que se desenvolvem as imagens, como se dá na HQ enquanto linguagem já constituída. Em Outcault, além do texto escrito na camisola, há balões nas falas do papagaio.

Percebe-se, tanto em Töpffer quanto em Outcault, talvez devido às relações entre imagem e língua serem ainda mal definidas, uma tendência para a pantomima, ou seja, uma minimização do uso da língua, que deriva para quadrinhos apenas visuais. Nos tempos de Outcault, a virada do século XIX para o século XX, a pantomima fui um dos recursos para vender jornais para analfabetos; The yellow kid takes a hand at golf, reproduzida antes, dispensaria as palavras escritas na camisola do protagonista e as falas do papagaio.

A pantomima é um gênero bastante antigo de Histórias em Quadrinhos, praticamente ela está na gênese dessa linguagem. Em Henry, de 1932 – no Brasil, o Pinduca – criado por Carl Anderson, predomina a pantomima:

pinduca(história e desenhos de Don Trachte e John Liney)

Embora o quadrinho mudo ou pantomímico seja tão antigo quanto a própria linguagem dos quadrinhos, ele está longe de configurar apenas uma etapa a ser superada; pelo contrário, o quadrinho mudo tem sua própria história na história da HQ. Diferentemente do cinema, em que o cinema mudo parece mais uma etapa da evolução do cinema enquanto linguagem, a pantomima não está apenas nas origens dos quadrinhos, ela permanece ao longo de seus desenvolvimentos posteriores.

Na HQ brasileira da atualidade, seja dentro do mercado editorial, seja em vias alternativas, há dois exemplos de pantomima que merecem destaque:

(1) os trabalhos de Gustavo Duarte;

(2) a coleção Cachalote 1000, projeto de Rafael Coutinho.

No que diz respeito a HQ experimental, a coleção Cachalote é apresentada como quadrinho experimental – o nome 1000 refere-se a mil modos de construir narrativas –; Gustavo Duarte, por sua vez, não costuma se colocar como experimentalista. Diante disso, caberia indagar se a coleção Cachalote se configura como experimental por não utilizar a língua em suas composições. Em outras palavras, basta ser pantomima para ser uma HQ experimental?

Trabalhos como Monstros, de Gustavo Duarte, parecem mais uma depuração da pantomima do que, necessariamente, experiências com ela. A coleção Cachalote é diferente: não se trata da presença ou não de usos da língua, o experimentalismo na Cachalote incide nos modos de condução narrativa.

Na Cachalote 1000, a pantomima é uma coerção; os autores que nela colaboram têm a ausência da língua como uma condição de composição da HQ. No que diz respeito à pantomima, todos eles depuram o gênero; as estratégias narrativas, porém, são bem mais sofisticadas que as pantomimas do Pinduca ou do Yellow Kid.

Yellow Kid disputa a bola de golfe com um gato de rua e Henry/Pinduca atormenta um passageiro do bonde. Ambos estão envolvidos em narrativas simples, com ações repetidas em função de um mesmo motivo, dispostas em tempo cronológico.

Já, na Cachalote 1000:

(1) em Drink, do Rafael Coutinho, HQ que inaugura a coleção, as personagens seguem por
narrativas intrincadas, com muitos desdobramentos e tempo fragmentado;

cachalote

(2) Desvio, de Daniel Gisé, tem a narrativa difusa, que desestabiliza as expectativas
do leitor com encaminhamentos inusitados;

desvio

(3) La naturalesa, de DW Ribatski, Sim, de Gabriel Goes, e O plexo holístico, de Diego Gerlach, parecem pesadelos; as imagens surgem, como nos sonhos, enquanto manifestações simbólicas de conteúdos latentes, portanto, com significação bem mais complexa que as trapalhadas divertidas de duas crianças. Eis um exemplo extraído das páginas de Sim:

sim

Não se trata de minimizar os trabalhos de Outcault e Tracht/Liney, pois uma HQ não se faz apenas de estratégias narrativas; trata-se de mostrar algumas diferenças entre modos distintos de composição.

Para concluir, a pantomima encaminha, pelo menos, uma consideração importante sobre a HQ experimental: ela permite diferenciar depuração de experimentalismo, já que a depuração se refere a aprimorar gêneros já consolidados na história da linguagem em questão, enquanto o experimentalismo incide em renovações e subversões de tópicos já consolidados, como, por exemplo, as estratégias narrativas.

Na próxima semana, vou apresentar alguns exemplos de experimentação narrativa na linguagem das HQs; vou falar de Rick Griffin, Bill Sienkiewicz, Luiz Gê e continuar comentando a coleção Cachalote 1000.

Sobre a história da HQ, não deixe de ler “A história da história em quadrinhos”, do Álvaro de Moya. A história mais completa da HQ é a coleção “Historia de los comics”, em quatro volumes, da editora espanhola Toutain – a coleção, além de textos de especialistas, traz uma antologia das HQ mais significativas do século XIX até os finais do século XX.