HQ Experimental – Parte 1

O que é HQ Experimental
Antonio Vicente Seraphim Pietroforte

Tenho mais de 50 anos; como muitos da minha geração, tive a sorte de ser alfabetizado em histórias em quadrinhos. Quem se lembraria da Sessão Patota? Ia ao ar na antiga TV Tupi – o Canal 4 – nos finais da tarde. Desenhos animados da Marvel faziam parte da programação; foi na Sessão Patota que eu vi, pela primeira vez, as aventuras do Homem Aranha, Thor, Capitão América, Homem de Ferro, Hulk e Namor. Durante o programa, nos intervalos dos desenhos, havia propagandas de quadrinhos.

Naqueles tempos, a Editora Brasil América, a Ebal, editava HQs da Marvel – formato americano, papel de excelente qualidade –. Com exceção dos textos pedidos na escola, o primeiro texto que li na vida, por escolha própria, foi uma HQ do Homem de Ferro:

homem_de_ferro

Na época – com seis anos de idade –, eu quase não entendi nada; a HQ era bem mais complicada do que os desenhos animados. Entre outras coisas:

(1) havia muito mais textos para ler nas HQs do que falas para ouvir nos desenhos;

(2) as aventuras nas HQs eram como novelas, as narrativas continuavam ao longo dos números seguintes, enquanto, nos desenhos a animados, as narrativas eram completas, além de serem bem mais simples.

Mas o que tudo isso tem a ver com HQ experimental? Aparentemente, nada; contudo, aqueles erros de leitura podem ajudar a entender a HQ como uma linguagem. Muitas vezes, não entendemos alguns textos porque não sabemos como eles devem ser lidos; isso acontece com obras fora do senso comum, como, por exemplo, free jazz, música eletroacústica, poesia concreta, …, e algumas HQs.

Durante a minha infância, na HQ do Homem de Ferro, eu não entendi muito bem alguns códigos próprios daquela linguagem, que eu começava a aprender, diferentemente da linguagem dos desenhos animados, que eu já conhecia por meio da televisão.

Há muitos modos de aprender linguagens. As línguas, que também são linguagens, na maioria vezes somos nós quem procuramos por elas em cursos de inglês, francês, japonês, etc.; outras linguagens, como quadrinhos, cinema, televisão, músicas pop, etc., nós aprendemos por osmose, ou seja, o contato com elas nos leva a algumas decodificações básicas, que permitem compreende-las.

Em meio a esses processos de compreensão, um deles é a narrativa linear, ou seja, narrar os acontecimentos em ordem cronológica traçando, entre eles, relações de causa e efeito.

Vejamos a linearidade narrativa neste trecho de Tin Tin no Tibet, do Hergé:

tin-tin

Na linguagem da HQ ocidental, a leitura se faz em uma página de cada vez, de cima para baixo, da esquerda para direita; isso gera a sensação de que, ao longo das páginas, as ações narradas sejam lidas acorrendo uma após a outra. Em outras palavras, a passagem do tempo das narrativas se transforma no espaço percorrido nas páginas.

No trecho citado de Tin Tin, em que a expedição começa a jornada ao Tibet, o capitão Haddock, que sai na frente, vai sendo ultrapassado pelos demais – isso se percebe pela posição dos quadrinhos na página e pelas mudanças da paisagem ao fundo, que indicam o correr do tempo associado aos percursos do espaço –. Em seguida, o mesmo capitão, sob os efeitos do uísque, ultrapassa a todos novamente – isso se dá por meio da relação de causa e efeito estabelecida entre beber e andar mais apressadamente –.

Essa linearidade narrativa, de tanto se repetir no universo das HQs – e em outros universos, como o do cinema –, termina por se tornar senso comum, fazendo com que a maioria dos leitores não se dê conta de que ela é codificada.

Como todas as codificações, a narrativa linear pode ser depurada por autores como Hergé, Alex Raymond, Harold Foster, Milo Manara, tornando-se cada vez mais complexa e intrincada. A saga Fim dos Tempos, da DC, é intrincada, formada por várias narrativas e personagens vindos de mundos ligeiramente distintos, como Super Homem e John Constantine, mas, apesar de ser toda recortada por flashbacks e flashforwards, ainda é bastante linear.

Entretanto, alguns autores preferem subverter os códigos estabelecidos e propor novas formas de fazer sentido; o free jazz, a música eletroacústica, a poesia concreta e algumas HQs fazem, justamente, isso. Geralmente, inovações e subversões nas linguagens geram obras que são chamadas arte experimental.

Pode-se concluir, portanto, que o experimentalismo em arte se define em relação a ocorrências mais convencionais dentro da mesma linguagem.

Na semana que vem, vamos discutir as relações entre a língua e as imagens na formação da linguagem dos quadrinhos. Em seguida, vamos mostrar como a língua e as imagens se relacionam com o experimentalismo.

Sobre a linguagem dos quadrinhos, não deixe de ler o clássico “Os quadrinhos / linguagem e semiótica”, de Antonio Luiz Cagnin.