Experimentalismo na Arte – Parte 3

Velhotas épicas
Rodrigo Bravo

Na semana passada, introduzi rapidamente o contexto histórico do período Helenístico, marcado pelo espírito nerd de seu monarca, Alexandre. Para quem ainda não o leu, segue o link!

Hoje, antes de mais nada, eu gostaria de propor outra pequena reflexãozinha: quem venceria quem? Batman ou Superman?

Talvez esta, a pergunta mais maldita da história das discussões nerds – perdendo talvez só para a igualmente terrível “Kirk ou Picard?” – não tenha sido uma invenção dos tempos modernos. É bem provável que meninotes da Grécia Antiga discutissem horas a fio sobre quem seria, de fato, o melhor: o Poderoso Aquiles ou o Astuto Odisseu?

troia

Se olharmos de perto estes dois heróis gregos, veremos que eles são curiosamente parecidos com os super heróis mais clássicos  da DC. As semelhanças (quadro abaixo) são assustadoras para aqueles que ainda acham que existe originalidade no mundo. A originalidade apenas existe enquanto ilusão; ela é a cópia que, de tão bem feita, esconde-se em uma falsa percepção de novidade.

Aquiles Superman Odisseu Batman
O mais forte dos heróis gregos O mais forte dos heróis da Terra O herói mais astuto e inteligente dentre os gregos O maior detetive do mundo
Invulnerável, salvo por um ponto fraco (calcanhar) Invulnerável, salvo por um ponto fraco

(Kryptonita)

Vale-se de estratégias, apetrechos e mutretas para vencer seus combates Possui milhões de “bat-acessórios”, age secretamente, ataca apenas durante a noite
Filho de uma deusa imortal, Tétis (difere dos humanos comuns) Filho de extraterrestres

(difere dos humanos comuns)

Sua história de origem inicia-se com a perda de sua família, ao partir para a guerra de Troia Perde os pais numa tentativa de assalto.
A ira causada por ter perdido sua amante/escrava, Briseida, o leva a comportar-se de maneira implacável A ira causada por ter assassinado Lois Lane o leva a comportar-se de maneira implacável (ref. Injustice) Riquíssimo, rei de Ítaca, tem um servo fiel que lhe aguarda há vinte anos (Eumeu), que o prepara para a batalha final CEO das indústrias Wayne, foi criado e treinado por Alfred, seu fiel mordomo

Tanto Aquiles e Odisseu, quanto Superman e Batman, são, para suas épocas, arquétipos canônicos de heróis. É a partir deles que derivam todas as virtudes e poderes que aparecerão, posteriormente, em outros personagens semelhantes. Todos dividem as características de vigor, agilidade, valor e de espírito guerreiro; eles são modelos de comportamento distintos com os quais seus leitores se identificam e procuram emular. Chegam até mesmo a ser (mais na Grécia do que nos dias de hoje) paradigmas de moral e de comportamento exemplar.

A estes heróis originários, cabe um lugar de destaque para sua realização: enquanto que Batman e Superman são heróis que pertencem por excelência ao mundo dos quadrinhos, e praticamente foram responsáveis pela popularização e massificação desta mídia, Aquiles e Odisseu são os personagens mais importantes de um dos primeiros gêneros literários do Ocidente: a poesia Épica.

iliada

Fragmento da Ilíada (Homero), o primeiro poema da literatura Ocidental, AKA primeiro crossover de Aquiles e Odisseu (poema: séc. VII a.C.; papiro: séc. II a.C.)

Aristóteles, em sua Arte Poética, define a poesia épica como tendo, dentre outras características, longa extensão, estilo narrativo misto (falam tanto narrador quanto personagens) e a representação de pessoas superiores a nós. É neste terceiro elemento que reside a noção mítica de Herói: homens e mulheres nascidos há muito tempo, cujas vidas se entrelaçam intimamente com o mito, muitas vezes ditos descendentes dos próprios deuses, que foram responsáveis por feitos memoráveis dignos de serem cantados pelos poetas. Ouvir poemas épicos sobre reis, guerreiros, princesas e batalhas sendo recitados com acompanhamento de lira era uma prática que irmanava os diversos povoados gregos em seu idioma e arcabouço mítico comuns; era fonte de entretenimento, cultura e formação social.

Cerca de quinhentos anos depois da composição de Ilíada e da Odisseia, os pergaminhos da Biblioteca de Alexandria que continham estas obras não foram capazes de gravar a prática recitativa pública a elas inerente que marcou as Grécias Arcaica e Clássica. Saía de cena a performance como aspecto determinante da poesia e, em seu lugar, emergia a figura do livro. Os acadêmicos da Biblioteca não acompanharam os mesmos rituais que se transcorriam durante a recitação dos poemas; para eles, a poesia era uma sucessão de letras grafadas num papiro. O preço da imortalidade desta arte foi o sacrifício de sua dimensão teatral.

Mas a perda da teatralidade não foi, de todo, ruim, uma vez que possibilitou que hoje pudéssemos ler, na íntegra, estas verdadeiras joias da literatura. E devemos agradecer por isto a pessoas como o poeta e acadêmico Calímaco de Cirene (310-240 a.C.), um dos responsáveis pelo processo de cópia, transmissão e estabelecimento de textos na Biblioteca de Alexandria. Uma de suas obras mais importantes, os Pínakes (grego Antigo para “Tábuas”), foram um extensivo catálogo dos mais de 500.000 rolos de papiro guardados na Biblioteca em seu apogeu; estas tábuas serviam de legenda e chave de orientação pela biblioteca, e foi nelas que Calímaco desenvolveu seu sistema aristotélico de classificação de espécies diferentes de poesia, criando, assim, um conceito mais preciso de gênero literário. Talvez Calímaco, se tivesse nascido hoje, seria muito parecido com o personagem Abed Nadir da série de TV Community (interpretado pelo excelente Dani Pudi): um conhecedor em níveis absurdos de toda a arte cinematográfica, suas figuras de linguagem e seus esquemas narrativos.

Cool... cool, cool, cool.

Cool… cool, cool, cool.

Porém, como seu doppelgänger Contemporâneo, o grego não só era um acadêmico e savant de sua arte predileta. Além de crítico, o cara também era poeta, e dos bons. Dos melhores, para se falar a verdade, ainda que sua obra só tenha chegado a nós em estado fragmentário. Como será, então, que faz poesia uma pessoa que já tinha lido praticamente toda a produção bibliográfica de sua época, que já lera todas as boas ideias compostas por autores como Homero, Píndaro, Safo e Alceu? A resposta, sucinta, jaz naquele poema de E. M. de Melo e Castro: Calímaco abre um círculo, outrora cerrado, e faz irromper dele um novo ritmo, agora liberto. Guiado por seu cérebro sistemático e sua sensibilidade, o poeta Helenístico dissolve e reorganiza a sua tradição – produz o ilusivo efeito do novo, imerso em não-originalidade.

Um dos melhores exemplos do experimentalismo da poesia de Calímaco é seu pequeno poema épico (e já se vê aqui o primeiro de seus efeitos: a épica deveria ser extensa) Hécale. Nela, em vez de narrar os feitos de heróis másculos e viris, ou a fundação de uma próspera cidade, o autor prefere contar uma versão quase que lynchiana da lenda de Teseu. Para terem uma ideia do que acontece na narrativa, peço que façam o seguinte: pensem que fomos ao cinema ver o mais novo e mais esperado filme de ação da Marvel, um em que os Vingadores se juntam aos X-Men para lutar com Galactus e Apocalipse dentro de uma supernova. O filme começa, surge o título, a trilha sonora aterradora, a expectativa aumenta e, num salto, a câmera corta para a primeira cena: uma casinha amarela, nela, dá pra se ver pela janela uma vovozinha tricotando um cachecol; passarinhos cantam ao fundo e pousam no parapeito, é tardezinha, passa um gato, a casa da velhinha é bem ordeira. “É agora!”, pensamos, achando que o pé do Galactus logo achatará a casa da velhota ou qualquer coisa que se preze. Nada acontece. “Hahaha”, rimos desconfortavelmente, “essa Marvel só deve estar de brincadeira, daqui a pouco aparece o Stan Lee”. Nada acontece; já são vinte minutos de filme; as pessoas estão já xingando e se levantando das cadeiras. Uma hora e meia de filme, só nós na sala de cinema, um lanterninha e um casal no fundo. Nada aconteceu. Já é de noite e, de repente, um clarão explode nos céus, apagando-se rapidamente. A velhinha para de tricotar e olha pela janela, para cima; ao ver nada, ela senta de novo em sua poltrona e liga a televisão. É possível ouvir e ver o anúncio na tela: “Últimas notícias! Os Vingadores e os X-Men salvaram toda a humanidade! Galactapocalipse encontrou sua morte hoje, ao ser arremessado pelos destemidos heróis dentro da supernova VY Canis Majoris, em torno da qual orbitava sua fortaleza. Morre com ele seu império de terror!”. Corte de câmera. Rolam créditos sem trilha sonora.

Talvez fosse este o efeito que sentiu um grego quando terminou de ler os versinhos que compõem a Hécale. Aqui, a narrativa épica da lenda de Teseu e do Touro de Maratona é contada através de uma “câmera fixa” na choupana de Hécale, uma pacata senhorinha que fazia nada além de cuidar da própria vida até que o herói grego se tornasse seu hóspede. O poema narra o dia e os afazeres da velhota, seguindo com a chegada de Teseu à sua casa e o momento que os dois conversam e comem juntos. Quando achamos, porém, que o foco narrativo acompanhará o herói em sua viagem, ele permanece fixado em Hécale e sua vida. O poema se conclui com a morte da velhinha e a homenagem póstuma que Teseu lhe presta, ao batizar um demo segundo seu nome. O poema começa e termina no mesmo lugar, sem nunca ter saído dele. A câmera da épica, com todos os seus takes e ângulos panorâmicos e distintos (é só lembrar do filme Troia), agora se prende a um tripé e não se move. O desafio que Calímaco supera é o de produzir uma épica que subverte sua própria natureza, ao mesmo tempo que cativa o leitor com sua verve poética, e não deixa o controle da narrativa escorregar de seus dedos engenhosos.

Infelizmente, a Hécale não sobreviveu aos dias atuais em sua integralidade, e não podemos fruir dela completamente. Filólogos dedicados, porém, conseguiram estabelecer os motivos centrais e as linhas gerais do texto, a partir da análise do papiro e de outras fontes bibliográficas que também narravam a história da anfitriã de Teseu. Mesmo assim, incompleta, a Hécale permanece sempre como um documento incontestável de que o experimentalismo na arte não é um movimento isolado da Contemporaneidade, mas em vez disso uma fase natural e recorrente do desenrolar dos fenômenos da cultura.

Na semana que vem, concluiremos o mês Helenístico na Cifra falando sobre dois gêneros de arte surgidos na época, o epigrama e a poesia bucólica. Espero todos vocês!