Experimentalismo na Arte – Parte 2

O Império Nerd
Rodrigo Bravo

Na semana passada, introduzi o tema deste mês, a literatura grega no período Helenístico. Caso não tenham lido ainda este texto, cliquem neste link!

Já começarei a coluna de hoje pedindo perdão a vocês leitores, pois terei que fazer uma pequena digressão antes de discutir o tema desta semana. Gostaria de propor um breve um questionamentozinho à toa: o que vocês, por ventura, fariam se um dia dominassem o mundo?

Acredito que a grande maioria dos seres humanos do nosso pálido ponto azul já tenham, pelo menos em uma ocasião de suas vidas, viajado nesse pensamento. “Eu acabaria com as guerras”, dizem os mais beatos; “Eu explodiria toda essa m****”, dizem os mais profanos. Quer seja ao “bem”, quer seja ao “mal”, o ser humano gosta de exercer poder (já nos bem dizia Foucault), mas poucos são aqueles que conseguiram segurar o orbe terrestre na palma da mão. Obviamente que todos, inevitavelmente, acabaram por deixá-lo cair, apenas para que ele parasse nas mãos do próximo da fila.

Hoje quero falar de uma dessas pessoas que ousaram e conseguiram, de fato, dominar o mundo conhecido de sua época: um jovenzinho cujas conquistas contribuíram para formar nossa maneira de conceber as ciências, a arte e a filosofia. ninguém menos que Alexandre da Macedônia, ou “o Grande” para os íntimos.

alexandreSempre fashion…

É certo que Xandinho não ganhou seu apelido carinhoso logo que saíra das fraldas. Para ser “o Grande”, o rapazote precisou antes passar pelo equivalente de estudar em Harvard, mestrar em Oxford e doutorar no Grande Colisor de Hádrons para o padrão Antigo: o sistema educacional desenvolvido na Grécia. Música, Aritmética, Geometria, Retórica, Lógica, Astronomia, Gramática, Ginástica e um caminhão de Filosofia; estas eram as disciplinas às quais o rei Filipe submeteu seu filhote nos anos tenros de sua formação. E sendo Filipe um rei, dos bem poderosos (com isso subentenda-se: rico), ele jamais confiaria seu filho a qualquer sofista mequetrefe das ruas de Atenas; esse era um trabalho para a pessoa certa, havia de ser perfeito, sem espaço para enganos…

Desde o Big-Bang, eventos vão se sucedendo um ao outro no espaço-tempo. Se são frutos de mero acaso ou se há um destino delimitado, não sei (quem sou eu para dizer a Deus o que fazer com seus dados?), mas ao escolher o professor de Alexandre, Filipe, sem querer, acabou criando o veículo de propagação de ideias responsável por uma boa parte da estrutura do pensamento Ocidental. O escolhido foi um grego que calhava de estar a procura de emprego na época, um jovem filósofo e cientista que, um dia, seria conhecido por todos nós como Aristóteles de Estagira.

Nomeie qualquer curso universitário Contemporâneo: música, letras, engenharia, direito, antropologia, artes, biologia, física, etc. Todos eles se iniciam com a leitura de algum texto escrito por Aristóteles. Se hoje classificamos animais por meio de distinções físicas (quantidade de patas, presença ou ausência de mamas, etc), se estabelecemos critérios para julgar boa ou ruim uma série de TV, se diferenciamos correntes políticas e formas de governo, ou se compreendemos mais profundamente as paixões humanas, tudo isso se deve a este brilhante discípulo de Platão.

A educação proveniente de Aristóteles foi tão marcante na vida de Alexandre que configurou as bases de seu vastíssimo império. Quando o Grande capturava uma cidade, ele não mandava seus soldados atrás de tesouros ou escravos, mas sim atrás de livros, pergaminhos, cartas, documentos e qualquer outra espécie de material escrito. Seu objetivo era o de possuir reunido em um só lugar a totalidade do conhecimento humano. Navios que paravam na recém fundada Alexandria (Egito) eram revistados e, caso contivessem quaisquer livros, tinham-nos confiscados e deveriam aguardar até que cópias destes fossem feitas, para só então partirem novamente. Para viabilizar sua empreitada, Alexandre construiu um palacete gigantesco, uma das maiores construções da época: a famosíssima Biblioteca; construiu também, a fim de tornar Alexandria o maior polo emanador de conhecimento do mundo Antigo, uma instituição voltada ao estudo das artes e das técnicas: o Museu, estabelecimento que sobrevive até os dias de hoje, ainda que com finalidade diferente.

bustoCom o objetivo de administrar todo este conhecimento, Alexandre e a dinastia Ptolomaica que lhe sucedeu após sua morte empregaram, durante séculos, os serviços de sábios que eram responsáveis por gerir, catalogar, organizar e estudar cada um dos manuscritos que chegavam à Biblioteca. O trabalho destes primeiros acadêmicos assalariados muito se assemelha ao regime atual do trabalho universitário: eles produziam conhecimento e avanços tecnológicos, em troca de pagamento subsidiado por uma instituição formal. Em poucos anos, o pensamento de Aristóteles (que servia de base para a investigação dos sábios alexandrinos) já tinha se disseminado por todo o território do império Macedônico e, posteriormente, dos Reinos Helenísticos. Todas as tradições científicas e filosóficas que foram produzidas a partir de então possuíram Aristóteles em seu DNA. O filósofo de Estagira tornou-se, assim, o ancestral comum de todo o pensamento ocidental; o fundador intelectual do império mais nerd de todos os tempos.

Aqueles poemas que vimos no texto da semana passada são alguns dos muitos casos de manifestação desta aura geek que permeava o Império Macedônico e os Reinos Helenísticos. Toda a arte que emanou deste período buscava, de algum modo, desestruturar as tradições de onde partiam, reinventá-las depois de compreender plenamente seu significado. Observem bem, por exemplo, estas estátuas abaixo:

Doryphoros - sec. V a.C.

Doryphoros – sec. V a.C.

Laocoonte e Seus Filhos - sec. 140 a.C/42 a.C.

Laocoonte e Seus Filhos – sec. 140 a.C/42 a.C.

Enquanto o período Clássico (secs. V – IV a.C – anterior a Alexandre) explorava as linhas naturais do corpo humano em posições estáticas, o período Helenístico levava juntas,  músculos e tendões às últimas consequências, retorcendo-os e testando seus limites. Os versos de Símias no Ovo são como os membros retorcidos de Laocoonte e seus Filhos: eles percorrem todas as direções em movimentos cuja aparência caótica esconde uma minuciosa e obsessiva regularidade; eles possuem inumeráveis camadas de significados, todas escondidas em sua simplicidade enganadora…

Aos leitores que conseguiram ver, neste período histórico, uma motivação similar a das artes experimentais da idade Contemporânea, confesso que esta é uma leitura interessante, que muito tem a acrescentar à discussão na crítica literária. Descobrir onde se escondem estas relações de semelhança entre eras distintas é, além de uma maneira de nos reconectar com o passado de nossa espécie, uma forma de conhecer melhor nossa condição humana. Por meio do método comparativo de ciências como a História, a Filologia e a Linguística, podemos não apenas compreender que somos H. sapiens, mas também (e acima de tudo) como fazemos jus a esta nomenclatura.

Despeço-me de vocês por aqui, mas, na terça-feira que vem, iremos um pouco mais a fundo em nossa viagem no tempo: falaremos sobre o poeta Calímaco de Cirene, diretor da Biblioteca de Alexandria, e o impacto profundo que sua poesia causou na história da literatura…