Experimentalismo na Arte – Parte 1

Nem tão Moderno assim…
Rodrigo Bravo

Vira e mexe desce uma suma autoridade da Torre de Marfim e declara: “a poesia está morta! A música está morta! A arte está morta!”, e segue-se um cortejo fúnebre de milhares de jovens e velhos que aceitam cegamente tamanha baboseira rançosa. Mas não, nem a arte, nem a música e nem a poesia morreram; só fazem, feito fênix, como sempre: reinventam-se e renascem. A arte fica sempre um passo a frente de seu tempo, cabendo aos conservadores apenas o cheiro de mofo, naftalina e formol.

Uma vítima constante dos ataques da crítica é o experimentalismo, movimento da Idade Contemporânea que engloba praticamente todas as modalidades de arte, tais como a pintura, o teatro, a poesia, a fotografia e a música. O experimentalismo é um modo de fazer artístico muito peculiar, embasado não só na vastíssima erudição de seus membros, mas também na metamorfose que realiza das tradições estéticas anteriores. Este projeto de dar caras novas ao passado, respeitando-o enquanto herança, mas convertendo-o em contemporaneidade, pode ser resumido num adágio aliterante: ruptura em retomada. No experimentalismo retoma-se o passado, rompendo-se com ele visando ao futuro.

circulo

A olhos mal treinados, esse poema de E. M. de Melo e Castro parece ser redondamente óbvio e simplório, mas olhemos bem: o poeta dispõe um círculo, e nele escreve o verso “círculo aberto”, em seguida, duas linhas com o verso “ritmo liberto” disparam em direções opostas, como átomos num colisor de partículas; as palavras deste verso agora estão livres, mas mesmo assim rimam com e possuem o mesmo número de sílabas poéticas que as do primeiro:

cir/cu/lo a/ber/to (quatro sílabas poéticas)

rit/mo/ li/ber/to  (quatro sílabas poéticas)

O que Melo e Castro quer nos mostrar é que, mesmo sua poesia tendo se tornado um ritmo aberto, que irrompe de um círculo aberto, ela ainda deve observar as regras fixadas pela tradição. Aqui, a disposição concretista dos versos esconde a metrificação e reduz a significância da rima; a mensagem anarquista apresentada pelo poema é executada de maneira regrada; a liberdade das formas (retas opostas irrompendo de um semicírculo) se opõe à precisão geométrica das imagens. Em suma, o Novo só pode ser novo se reorganizar e ressignificar o Velho. Um belíssimo poema!

“Certo, e daí?”, dizem os incautos, “Os antigos não precisavam de tantos malabarismos visuais para fazer belos poemas…”. Será mesmo? O que dizer, então, quando de repente aparece um negócio assim:

"O Ovo" - Símias de Rodes

“O Ovo” – Símias de Rodes

E outro assim:

"A Siringe" - Teócrito

“A Siringe” – Teócrito

De quando você, leitor, acha que são estes poemas? Da década de 90? de logo depois da Segunda Guerra? Se estes forem os palpites já digo: erraram por pouco mais de dois mil e trezentos anos. Ambos os poemas são cópias de papiros da famosa biblioteca de Alexandria, foram escritos em grego antigo, e são exemplos que nos mostram que há bastantes equívocos nas divisões de períodos históricos que a academia cunhou pra a literatura. Os autores destes poemas, antes mesmo de que Camões tivesse sequer pensado em nascer para escrever decassílabos quadradinhos, já faziam poesia concreta, poesia cheia de coisas que atrevemos de chamar hoje de “Modernistas”.

Curiosamente, assim como em Melo e Castro, os gregos não foram de maneira simplória empilhando palavras, umas após as outras, mas sim seguiram padrões rigorosos de versificação, trato da linguagem e referências ao corpus da lírica e da épica extremamente precisas e minuciosas. Ao que parece, guardadas as devidas proporções, Melo e Castro e os gregos alexandrinos estão fazendo arte pelos mesmos meios, ou seja: estão experimentando com suas infinitas possibilidades.

Tendo dito tudo isso, gostaria de convidar você, leitor, a conhecer nas próximas três semanas um pouco mais sobre esta riquíssima poesia experimental da Antiguidade e seu contexto histórico. Desta forma, poderemos ver de perto como conceitos como gêneros literários e movimentos artísticos não são lineares e estanques, mas sim fluidos, cheios de entrâncias e reentrâncias, movíveis em quatro dimensões…

No texto semana que vem, falarei sobre as origens filosóficas e o contexto histórico da poesia experimental do período Helenístico, a fim de investigar mais sua estranha modernidade. Espero todos aqui na próxima terça-feira para visitarmos 323 a.C.!