Chris Ware e o quadrinho experimental – Parte I

Conhecendo o autor
Clarissa Ferreira Monteiro

Esta é uma pequena série de textos que buscará apresentar aos leitores um pouco sobre o quadrinista norte-americano Chris Ware. Ele pode ser considerado como parte da cena alternativa do quadrinho contemporâneo, esta que tem como um dos principais nomes, Art Spiegelman, autor de Maus. As obras de Ware podem não ser tão conhecidas (ou acessíveis) como os quadrinhos mainstream de super-heróis, mas é inegável a sua importância no cenário mundial dos quadrinhos, sendo um dos mais célebres autores da atualidade. Ao longo desta série, a temática e estilo do autor serão abordados, dando destaque para sua última grande publicação, Building Stories (2012).

Nascido em 1967, Chris Ware é considerado um dos quadrinistas norte-americanos mais influentes dos anos 1990 e 2000. Com mais de 20 anos de carreira, é colaborador frequente da revista The New Yorker, além de ter trabalhos publicados no The New York Times, The Guardian e também a sua própria série de revistas de quadrinhos, a ACME Novelty Library.

Why I love comics, de Chris Ware. Disponível AQUI.

Dentro de sua produção, entram em destaque suas duas maiores obras: Jimmy Corrigan: o Menino Mais Esperto do Mundo (publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras) e Building Stories (publicado pela Pantheon Books, ainda sem edição brasileira).

O estilo de Ware é inconfundível: seus quadrinhos possuem uma complexidade formal muito particular, especialmente na questão da diagramação. Ware possui um traço limpo, mas é possível ver suas influências artísticas vindo tanto dos quadrinistas que o antecederam, como também da publicidade e do design gráfico norte-americano do início do século XX. A questão do design possui uma função narrativa crucial nas histórias de Ware: a composição não só dos elementos plásticos como também verbais é feita de maneira cuidadosa e por vezes até intrincada, criando uma coesão visual de texto e imagem que vai além do uso corriqueiro dos textos em balões, onomatopeias e narrações. Há vários casos em que o texto nos quadrinhos de Ware é usado da maneira convencional, mas nos casos em que o padrão é quebrado, é possível ver o potencial poético e narrativo do design nestes quadrinhos.  Ware torna possível ler o texto como imagem e, assim, criar desdobramentos na interpretação das suas narrativas gráficas.


Esboço de uma das páginas de Building Stories. Disponível AQUI.

Apesar de fazer construções por vezes labirínticas em suas histórias, a temática de Ware costuma ser simples, tratando de questões como o cotidiano, a solidão, a dor. O suporte dos quadrinhos, dessa forma, serve como um instrumento que traduz visualmente as emoções dos seus personagens. Nas palavras do próprio autor, em uma entrevista para a revista Dangerous Drawings:

“Artistas como Daniel Clowes, Jason Luttes, e eu, estamos todos tentando contar uma história séria usando os recursos do humor. É como se estivéssemos tentando escrever um épico poderoso, profudamente envolvente e ricamente detalhado com uma série de limeriques. Eu tentei expandir as possibilidades para o formato [dos quadrinhos], apenas para conseguir um pouco mais da percepção de uma experiência real.”

Na próxima semana, falaremos mais sobre as publicações de Ware na ACME Novelty Library, de onde vieram histórias que depois fizeram parte das duas grandes obras de Ware, além da sua escolha de apresentar o cotidiano como tema e a maneira como ele trabalha com isso.