A poesia experimental portuguesa I – 3ª parte

A poesia de Ana Hatherly
Antonio Vicente SERAPHIM PIETROFORTE

Segundo alguns poetas contemporâneos, a poesia visual não é nova, contrariamente ao que muitos leitores imaginam. É possível encontrar poesia visual em, pelo menos, quatro períodos da história ocidental: (1) na Grécia antiga, no período Alexandrino – 336 a 30 a.c. –; (2) na Europa, no período Carolíngeo – 800 a 924 d.c. –; (3) durante o Barroco – século XVII –; (4) na modernidade, nos dias atuais.

Como em Portugal a arte barroca foi vivida com intensidade, há documentos suficientes para Ana Hatherly, professora de literatura portuguesa da Universidade Nova de Lisboa, encontrar bastantes exemplos de poesias visuais no barroco português. Eis duas delas, recolhidas por Ana Hatherly:

 

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Semelhantemente às poesias visuais da modernidade, a leitura desses poemas não é discursiva nem analítica, a leitura é sintética, pois suas relações linguísticas não são apresentadas em argumentos lineares, em que frases se seguem umas às outras, mas dispostas todas em paralelo, simultaneamente na imagem visual do desenho.

Além disso, o sentido dessas poesias depende das muitas combinatórias possíveis, ela nunca é a mesma e varia em cada leitura, e para cada leitor. A seu modo, ela se parece mais com as interações e variações de leitura entre os computadores e seus usuários do que com as interações entre leitores e livros de poesias tradicionais.

Inspirada nesses modos de fazer poesia do barroco português, Ana Hatherly faz sua poesia experimental. Isso não significa que Ana Hatherly fez somente poesia moderna com inspiração na poesia visual barroca, esse é apenas um dos procedimentos experimentais adotados por ela. Além disso, ela fez poesia sonora – ver a 2ª parte desta série –; poesia concreta – ver 1ª parte desta série –; em Tisanas, Ana Hatherly faz, praticamente, um poema em prosa em constante transformação, sempre se modificando e crescendo a cada edição do trabalho, que só teve fim com sua morte em 2015; em Anacrusa, ela reflete sobre 68 sonhos, convertendo seus sonhos noturnos nos capítulos do livro.

Nessa pequena notícia da sua poesia, vamos mostra algumas páginas de seu longo poema visual Leonorana, composto de 31 variações sobre este célebre poema de Luís de Camões:

 

Descalça vai pera a fonte

Lianor pela verdura;

Vai fermosa, e não segura.

 

Leva na cabeça o pote,

O testo nas mãos de prata,

Cinta de fina escarlata,

Sainho de camalote;

Traz a vasquinha de cote,

Mais branca que a neve pura.

Vai fermosa, e não segura.

 

Descobre a touca a garganta,

Cabelos de ouro entraçado,

Fita de cor encarnado,

Tão linda que o mundo espanta.

Chove nela graça tanta,

Que dá graça à fermosura.

 

O poema de Camões é um vilancete, espécie de poesia em que, a partir de um mote, que pode ser de autoria do próprio poeta ou alheio, o poeta compõe suas variações. A partir do mesmo mote – “Descalça vai pera a fonte / Lianor pela verdura; / Vai fermosa, e não segura.” – Ana Hatherly compõe suas variações, das quais seguem alguns exemplos:

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1º desenvolvimento do tema. Discurso sem interferência.]

 

Circunscrição absoluta aos elementos do tema.  Dessemantização por alteração sintática.  Autonomização dos elementos que constituem o tema. Mas primeira reformulação do tema. Primeiro afastamento.

Circunscrição absoluta aos elementos do tema.
Dessemantização por alteração sintática.
Autonomização dos elementos que constituem o tema.
Mas primeira reformulação do tema. Primeiro afastamento.

 

Reformulação por atomização concreta. Semantização visual.

Reformulação por atomização concreta. Semantização visual.

 

Formulação ideográfica. Semantização visual.

Formulação ideográfica. Semantização visual.

 

Ininteligibilidade por semantização visual absoluta.

Ininteligibilidade por semantização visual absoluta.

 

As explicações, que seguem a cada variação, foram colocadas pela própria poeta; nelas, há breves explicações, em termos linguísticos e poéticos, do que se pretende.

Não cabe analisar minuciosamente as variações de Leonorana, contudo, o poema é uma excelente ilustração da poesia de Ana Hatherly por, pelo menos três motivos:

(1) nele há menções à poesia de época passadas, sugerindo elos entre os experimentalismos da Modernidade, o Renascimento e o Barroco em Portugal – a utilização do mesmo mote, mas com variações verbovisuais, não mais discursivas –;

(2) há referências aos procedimentos da poesia visual barroca – a variação XII lembra os procedimentos combinatórios das poesias visuais citadas do Barroco –;

(3) essas referências não são meras repetições daqueles procedimentos, mas releituras deles com procedimentos próprio da Modernidade – as variações XVI e XIX lembram poesia letristas, que buscam expressividades plásticas por meio da grafia; a variação XVIII é um caligrama, pois desenha-se um labirinto com as imagens das letras –.

Na semana que vem, vamos falar da poesia performática de Fernando Aguiar.